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artes Entrevista 2002 .... 23
artes

Exemplo único

artes
Tatu, nanquim sobre papel, 22 x 36,5 cm, 1978



convívio saudável, sem essa neurose - porque tem artistas que só falam de arte quando se encontram. Eu converso sobre arte com o cara do posto de gasolina, com o Aldemir, converso coisas de homem.

Takashi: Como ele é uma pessoa de bom astral, a convivência é ótima. Costumamos sair para almoçar e contamos muitas piadas. Acho que este lado alegre está ligado ao tipo de atividade que exercemos. É uma atividade meio inconstante. É estranho imaginar que nossa profissão é na verdade um hobby, um lazer para muitas pessoas. Uma das coisas que aprendi com ele foi encarar esse “hobby” como uma verdadeira profissão, um trabalho que nos dignifica. O Aldemir tem esse lado muito profissional. Ele é muito regular no seu trabalho e sempre vai ao seu ateliê. Muitas vezes eu tento imitá-lo nesse aspecto de estar no ateliê. Mesmo que não esteja pintando, você está pensando na obra e isso faz parte deste trabalho.

Caciporé: Dos mais agradáveis e gostosos que se pode imaginar. Comemos rapadura, açaí, moqueca... Ele fala de mulheres, da história da arte... Ele é uma verdadeira enciclopédia viva da história da arte brasileira!

artes:: O que o Aldemir Martins significa para você?

Newton Mesquita:
Ele é meu ídolo. Gosto muito dele. É como se ele fosse um Tom Jobim, um Villa Lobos, um Chico Buarque... Existem pessoas que são referência para você. O Aldemir é uma referência muito forte e muito importante para mim.

Cláudio Tozzi: O Aldemir significa um grande estímulo. Eu frequentava o seu ateliê desde a época da Teodoro Sampaio. Perguntava sobre a questão das tintas, dos materiais e ele, sempre um artista generoso, orientava a mim e a todos que o procuravam. Creio que ele deve ter formado uma série de artistas que ele próprio não imagina! Sempre foi um estímulo, uma lição de comportamento.

Rubens Matuck: É o artista de quem eu mais gosto, o mais próximo, por quem tenho a amizade mais antiga...

Gilberto Salvador: Não é apenas o que ele significa para mim, mas para toda a cultura brasileira. Se tivéssemos que traçar um panorama do desenho no mundo nos últimos 100 anos, o Aldemir teria uma posição de destaque. É um marco na arte do desenho, um parâmetro na cultura brasileira. Seu trabalho tem um significado muito pessoal e muito especial. Pessoalmente, é um grande amigo e ponto. Uma pessoa a quem dou muito valor e um título que eu não vulgarizo - MEU AMIGO.

Takashi: Diversas coisas. Uma convivência de 30 anos tem esse lado de aprendizagem e de cumplicidade. Ele é como um mestre ou um padrinho para quem a gente pode ligar e perguntar qualquer coisa. A arte é mutante, todo dia reinventamos nossa atividade. O próprio Aldemir fica experimentando várias técnicas. Ele passa do desenho para a pintura e vice-versa. Ele foi um dos primeiros artistas a se introduzir na arte aplicada, fazendo desenhos para tecidos, porcelanas, potes de sorvete... A crítica chamou esse tipo de trabalho de comercial mas o Aldemir é incansável, testa de tudo e esse tipo de comentário não tem nada a ver com a atividade que ele exerce, misturando a arte na vida e no dia a dia das pessoas, tornando-a menos elitista.

Caciporé: Aldemir significa antes de tudo, um grande amigo a quem dou muito valor e, além disso, um dos maiores pintores/ desenhistas brasileiros.

artes:: Que lições de vida e de arte o Aldemir Martins lhe deu?

Newton Mesquita:
Durante muito tempo ficamos próximos e depois, por alguns motivos dos quais não gostamos muito de comentar, acabamos nos separando um pouco fisicamente. Mesmo assim, não há semana em que não pense que tenho alguns trabalhos dele aqui comigo. Eu convivo com essa “coisa” do trabalho, portanto, convivo com ele também. A lição de vida que ele me passou foi a do cotidiano com os amigos, como comer bem, dar risadas, não se levar tanto a sério... Vivemos numa época em que as pessoas acreditam que são o máximo; na verdade, somos muito frágeis, somos passageiros...

Cláudio Tozzi: É como falei, o contato com o Aldemir sempre foi estimulante. Três anos atrás, ele, o Scliar e eu, fizemos uma exposição itinerante por 15 ou 20 cidades do Brasil e o Aldemir estava sempre presente, como se fosse a sua primeira exposição! Sempre demonstrando uma enorme dedicação e um carinho especial pelo público. Sempre com uma produção bastante intensa e com um trabalho do qual as pessoas já tinham um conhecimento prévio. O Aldemir me deu todo esse estímulo para trabalhar.

Rubens Matuck: Recebi todas as lições de vida que se pode imaginar: como se comportar no mundo da arte, como reagir, como dar preço, como enfrentar toda a hipocrisia existente... A relação do artista com o poder é terrível. Ele me ensinou tudo. Me levou para conhecer o Brasil, uma coisa fundamental na minha vida. Eu, por exemplo, sou contrário à arte contemporânea, é uma arte cega para o país.

O Aldemir me mostrou como a arte popular brasileira é rica, sábia, sem essa empáfia existente com a arte européia. Ele me ensinou e me estimulou a viajar. Fomos juntos para a China. Aprendi a ver as coisas. Isso refletiu até na minha relação com a minha família, no modo como devemos nos comportar. O Aldemir me ajudou muito e ajuda a todos que o procuram. Não é nada pessoal, ele é generoso com todos que aparecem no seu ateliê. Isso é incrível!

Gilberto Salvador: Acho que não foram lições, como já disse, não o vejo como um mestre. Trocamos coisas. Temos uma relação de igualdade onde o fundamental é a troca. O Aldemir é um grade amigo de convivência.

Takashi: Aprendi sobre todo esse convívio, sobre o contato. Há 10 anos dou aula de desenho na Faculdade de Belas Artes para a turma de arquitetura e sempre digo que o mais importante é eles se abrirem para a arte. A arte está no dia a dia, você tem que frequentar museus, exposições, perceber que em todo lugar tem alguém pensando em design, em artes gráficas. As coisas estão mudando. A qualidade das artes gráficas no Brasil é considerada uma das melhores do mundo. Nesse aspecto, o Aldemir influenciou muita gente porque ele é um grande artista gráfico.

Caciporé: Aprendi que a pessoa pode viver de arte, viver com sensibilidade sem ser safado, sem ser sacana. Ao contrário, pode ser um bom vivant sempre pensando no grupo, na família. O Aldemir é um grande pai e um grande amigo.

artes:: O que você acha do Aldemir Martins como artista?

Newton Mesquita:
O melhor desenhista brasileiro e, talvez, um dos melhores do mundo. Como já falei, o Aldemir nasceu na época errada. A sua contribuição foi abrir as portas da arte junto com outros artistas. Na verdade, ele arrombou as portas, que eram fechadas, lacradas. O preconceito contra o artista ainda existe e algumas pessoas ainda me perguntam o que eu faço para viver! O Aldemir foi muito importante nesse sentido. Algumas pessoas falam que o seu trabalho é irregular. Acho que os grandes artistas erram bastante, entre aspas. Erram, mas na opinião de quem está vendo. Eles correm riscos, põem sua alma no trabalho e, às vezes, podem não estar num bom dia... Isso influencia a obra. Não é uma armação, não é só a técnica, tem emoção, envolvimento.

Cláudio Tozzi: Acho que o Aldemir é um dos maiores desenhistas que o Brasil já teve. Já ganhou um prêmio na Bienal de Veneza, é um grande pintor. Ele fez uma transposição do desenho para a pintura e também para a escultura, com uma série de objetos recortados em ferro. Ele tem uma formação muito ampla, pode resolver um problema de desenho ou de um trabalho gráfico, pode elaborar uma gravura ou um desenho para uma embalagem de um produto. É uma criatividade sempre crescente.

Rubens Matuck: Aldemir é o maior desenhista, pintor, escultor... Ele é um verdadeiro artista, com todas as letras. Sua obra, além da alta qualidade, mostrou o Brasil, o que foi um trabalho de extrema vanguarda na época. É uma idiotice dizerem que ele desenha melhor do que pinta. O que o artista tem que ter é liberdade e prazer no que faz.

Gilberto Salvador: Ele é um expoente da arte brasileira, da história da arte no mundo. Principalmente no que se refere ao desenho. Um gráfico excepcional. Espero que sempre tenhamos a possibilidade de tributar a ele uma parcela significativa da nossa valorização cultural.

Takashi: No caso do Aldemir, o artista e o homem se confundem. Ele vive o artista, está o tempo todo falando, pensando, fazendo arte. Ele tem esse lado humano do artista, mais filosófico, existencialista, erudito. Não é como outros artistas que tendem para um lado mais soturno e intelectualizado. Mesmo sendo muito culto, o Aldemir tenta manter a arte numa linguagem que as pessoas comuns conseguem atingir.

O Aldemir não faz arte popular mas está ligado a ela de certa forma. Muitos confundem a arte folclórica com arte popular e, sendo ele um artista do Norte, acham que sua arte é popular. A arte popular é uma coisa boa, mas o Aldemir não faz artesanato, não faz essa arte ingênua, com esse tipo de classificação. Sua arte está ligada ao mundo contemporâneo e ele faz esta passagem com muita perfeição.

Caciporé: O considero a história viva da arte brasileira e um dos melhores desenhistas do Brasil.

artes:: Que lugar a pintura do Aldemir Martins ocupa na arte contemporânea brasileira, qual é a sua importância?

Newton Mesquita:
Ela não ocupa o lugar que merece mas ele é um dos grandes artistas brasileiros. Ele, Di Cavalcante, Scliar, Portinari, Ismael Néri... O problema é que ele é muito acessível. O Aldemir abre as portas a qualquer pessoa que vá ao seu ateliê, serve cafezinho, fala abobrinhas... Por mais que as pessoas não saibam ou não entendam a sua importância, sendo sábio como é, Aldemir não liga para estas bobagens de lugar ou importância. Ele é um dos pilares da arte brasileira. Ele é aparte, é atemporal.

Cláudio Tozzi: O Aldemir é um dos grandes artistas desta geração, junto com Ianelli, Tomiko e todo esse pessoal que tem mais ou menos a sua idade.

Rubens Matuck: Essa pergunta é complicada para mim porque considero a arte contemporânea brasileira uma idiotice. ( continuação na página 24 )

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