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22 .... Entrevista 2002 artes
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"Ao Mestre com carinho"

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Fotos: Rita Feital
Newton Mesquita
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Claudio Tozzi
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Rubens Matuck

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Gilberto Salvador
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Takashi Fukushima
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Caciporé Torres

Para os seis artistas entrevistados e fotografados por Rita Feital Aldemir Martins nunca assumiu a postura de mestre, professor.

Jamais colocou-se como dono da verdade. Foi sempre e é um guru. Ensinou-lhes a arte de ser. De viver com humanidade, dignidade. Sobretudo, ser artista. CvS.

artes:: Como e onde foi que você conheceu Aldemir Martins?

Newton Mesquita:
Quando eu era bem menino e comecei a me interessar por arte, tinham duas pessoas de quem eu gostava muito, eram o Aldemir Martins e o Darcy Penteado. Em 75 ou 77, quando eu estava me formando na faculdade, conheci o Aldemir e comecei a conviver com ele. Sempre admirei seu trabalho e, sem dúvida, ele é o melhor desenhista brasileiro. O gozado é que vivemos num país que tem os melhores gravadores e desenhistas e a arte em papel não é bem aceita. Existe uma fixação pela pintura. Desde nosso primeiro encontro, o que me chamou atenção, me cativou e me comoveu foi a generosidade do Aldemir. Talvez ele seja uma das pessoas mais generosas que eu conheço.

Cláudio Tozzi: Conheço o Aldemir há muito tempo. Ele era amigo do Décio, meu irmão, e eu era bem pequeno. Eles sempre se encontravam e foi nessa época em que o conheci. O Aldemir brinca muito comigo dizendo que me carregou no colo. É uma amizade muito antiga, com muita estima e tenho uma grande admiração por ele desde que comecei a fazer meus primeiros trabalhos.

Rubens Matuck: Na escola conheci um sobrinho do Aldemir chamado Robson. Ele me levou até o ateliê do tio, que era um espaço muito aberto - porque o Aldemir é muito aberto! Assim eu fui, com 15 anos, e agora tenho 49. Gilberto Salvador: Conheci o Aldemir Martins quando eu tinha 14 anos de idade, 15 talvez. Me lembro que a primeira exposição que eu vi do Aldemir Martins foi em 64, 63 talvez. Algumas pessoas que eu conhecia também o conheciam e acabaram nos apresentando. O Aldemir foi como um pai para mim. Se eu pudesse ter um pai nas artes plásticas, seria o Aldemir. Ele foi um grande amigo desde essa época e, talvez, tenha servido de parâmetro como uma pessoa muito boa na arte de dar as coisas. Mais importante que isso, acho que ele foi uma referência fundamental para mim, como profissional. Sempre vi o Aldemir como uma pessoa profissional, com respeito pela sua própria obra.

Takashi: Já nem me lembro mais... Toda vez que nos encontramos, ele fala que já me carregou no colo. Meu pai morava no Paraíso quando se casou com minha mãe, nos anos 50 e tinha uma molduraria no Largo Guanabara. Existia um grupo de artistas que se chamava Guanabara que deixavam suas obras com meu pai para emoldurar. A molduraria virou galeria e o Aldemir sempre aparecia por lá para conversar. Pelo que me lembro, durante toda a minha infância, ele e a Cora sempre estiveram por perto. De lá para cá, nossos encontros são, às vezes frequentes, às vezes não. São Paulo é muito estranha porque às vezes nos aproxima e às vezes, tudo nos parece longe. Tenho muito carinho pelo Aldemir.

Caciporé: Eu o conheci nas Bienais. O Aldemir já era conhecido como artista. Nos conhecemos pessoalmente nas primeiras Bienais de São Paulo. Desde então, tenho pelo Aldemir uma amizade e admiração permanente.

artes:: O que o Aldemir Martins ensinou a você?

Newton Mesquita:
Eu copiava seus peixes, seus cangaceiros. Reforcei meu amor pelo trabalho e pelos materiais. Consegui “pegar” um pouco da sua generosidade. Aprendi com Aldemir que o verdadeiro artista plástico é uma pessoa generosa, que deve se doar. Enquanto cria, o trabalho lhe pertence mas, depois de pronto, pertence aos outros... Talvez, o que mais critiquem no trabalho do Aldemir, seja seu trunfo mais importante. Fazer embalagens, uma arte aplicada... Se o Aldemir tivesse nascido 50 anos depois, hoje seria considerado um “Deus”.

Cláudio Tozzi: A presença do Aldemir sempre me estimulou muito na pintura. Eu o tinha como exemplo. Via toda a sua dedicação à arte, sua perseverança. A coragem de Aldemir Martins abriu novos espaços, levou a arte para um público bem mais amplo, ousadia que muitos críticos não conseguiam entender. Aldemir fez todo um trabalho de vanguarda que merece grande reconhecimento. Trabalhos aceitos nos EUA mas, que aqui no Brasil, encontram restrições.

Rubens Matuck: Tudo.

Gilberto Salvador: Não foi apenas o ensinamento. O Aldemir não é um mestre, um professor, mas um grande companheiro, um grande amigo - somos corintianos! Ele gravou em mim o respeito pela cultura brasileira. Não estamos falando apenas de uma questão pessoal mas de uma questão conceitual. A ele dedico minha ligação e meu respeito pela cultura brasileira.

Takashi: Considero o Aldemir um grande artista, um dos desenhistas mais importantes que existe. Aprendemos muito com a convivência e, assim como meu pai, ele sempre foi uma pessoa muito alegre. Meu verdadeiro aprendizado está ligado a essa convivência. O fato de eu ter me tornado artista talvez venha daí. Aprendi esta vida com o Aldemir. Caciporé: Ele me ensinou que se pode viver com sensibilidade, ser um grande artista e ser amigo dos amigos. O Aldemir é um grande amigo dos amigos! Este é um prisma muito importante da sua sensibilidade. Independente de ser um artista consagrado - um dos maiores do Brasil, na minha opinião - , ele é colega, companheiro, não quer eliminar os outros, ao contrário, ele é catalisador.

artes:: Como é o convívio com o Aldemir Martins?

Newton Mesquita:
Muito prazeroso e muito divertido. Esta é a coisas mais importantes da vida - prazer, diversão, humor, generosidade, alegria... O Aldemir tem um astral maravilhoso.

Cláudio Tozzi: Estamos sempre juntos. O ateliê dele é bem perto do meu e vou visitálo com muita frequencia. Sempre vou comer uma rapadura, que ele guarda com muito carinho para mim. Gosto de estar com o Aldemir, de acompanhar seus trabalhos, ver o que ele está fazendo...

Rubens Matuck: O Aldemir é quase meu pai. Não convivo com ele todos os dias mas temos uma relação muito paternal. Ele me apoiou muito, me aconselhou. Coisas muito fortes para mim e difíceis de descrever. O Aldemir é uma pessoa extremamente generosa, que dá muita liberdade para você se expandir, ter seu próprio caminho. Esta é a, marca de uma pessoa fora do padrão. Ele consegue respeitar seu trabalho tentando entender o que você quer dizer. Muito diferente da ignorância que tomou conta da arte contemporânea, que dita que todos devem seguir a mesma linguagem.

Gilberto Salvador: O convívio com Aldemir é o convívio com um amigo. Ele é um camarada com quem me encontro sistematicamente para almoçar, jantar, falar do Corinthians... É um convívio de amigos e não uma relação entre artistas. Trocamos impressões e, na verdade, o que menos conversamos é sobre arte! É um ( continuação na página 23 )

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