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artes Entrevista Anos 80 .... 9
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O Sexo dos Anjos

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Foto: arquivo artes:
O artista e a jaca









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O artista e a jaca









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O artista e a jaca

madeira japonesa, que está lá montado certinho. O que eles conhecem de pintura. Carlos, de livro e pintura de livro, não existe!

artes:: ... não existe!

Aldemir:
Não existe. Então eles aprenderam pintura pelo ouvido e não pelos olhos, não é verdade? A única arte direta é a pintura porque não tem o condutor, não tem o maestro, não tem o tradutor, não tem o intérprete. Você olha e vê, não é verdade?

artes:: Mas com relação a você...

Aldemir:
Eu não me queixo deles, mas eu sempre disse que a crítica é assim...

artes:: Um pouco ausente.

Aldemir:
Ausente. Isso. Quase como um noticiário nacional, você é obrigado a ver antes do filme principal, goste ou não. Eles não acreditam no que eu faço. Não entendem o que eu faço. Não entendem mesmo. Não sabem a minha profissão de artista o que é. Pois eu podia, você sabe, já esteve comigo em alguns lugares no exterior, eu podia viver muitíssimo bem como artista em Paris, Londres, em Nova Iorque, em Santiago...

Em Buenos Aires, o mercado de arte é o melhor que eu tive até hoje. Eu não precisava trabalhar durante um ano. Eu expunha lá em julho e agosto, o Bonini vendia a exposição toda por um preço altíssimo. Eu vinha para São Paulo com dinheiro para passar seis meses sem fazer nada, tempo áureo de 56, 57, 58 em Buenos Aires, propostas para ficar eu tinha aos quilos, para fazer livro, para fazer ilustrações, para fazer isso e aquilo. Perez Aguero, esse rapaz que vive hoje em Paris, queria que eu ficasse na França cuidando de um projeto editorial. Só viria ao Brasil para gozar as minhas férias. Acontece que eu não sei viver fora do Brasil. Eu sou um cara literalmente brasileiro, de temperamento, de vivência, de tudo isso.

Minha casa em Roma era uma casa brasileira! As pessoas iam lá. O embaixador que abandonava a embaixada para almoçar e jantar comigo em casa, vendo as revistas, os livros, as coisas brasileiras que eu tinha. A farinha, a carne. A comida. O tempero. O feijão. Tudo isso eu tinha. Tinha o Brasil dentro de mim. A crítica queria que eu fosse assim um Jasper Johns, queria que eu fosse um cara que dos altos dos coturnos ditasse catedra, dissesse coisas bonitas, categóricas. Eu disse não, quem conhece a palavra são os escritores. Eles é que são donos da palavra. Eu só sei pintar e desenhar.

artes:: Você sempre se interessou muito por esportes. O que você achou do campeonato de Boxe... agora, dessa última luta?

Aldemir:
Do Chiquinho?

artes:: Do Chiquinho.

Aldemir:
Ah, essa luta foi muito boa. O Chiquinho é um menino muito bom. O problema do boxe brasileiro é um problema de alimentação. Porque o sujeito não pode trabalhar numa fábrica em Vila Zelina até as seis horas e o patrão deixar ele sair 15 minutos antes de fechar o expediente para ele pegar um ônibus, ou melhor, dois ônibus, e ir até o DEFE. Chegar lá as 8 horas, treinar sem comer, sem se alimentar, até as 9 horas da noite. Voltar correndo para casa, ter que estar dormindo as dez horas, senão não dá para estar de pé às cinco da manhã...

artes:: Você não achou o argentino, o Rodriguez um pouco...

Aldemir:
Meio passado, né? No boxe você sabe... No futebol você ainda pode enganar dois anos, mas no boxe, um ano e meio é muita coisa. Eu só conheci um boxeur que enganou durante muito tempo. Era o Archie Moore. O Archie Moore dizia que tinha 45 anos de idade, mas tinha mais de sessenta. E lutou com Reinaldo, eu assisti a luta em Roma e cada round que terminava ele batia na bunda do Reinaldo e dizia: “Como é Reinaldo, vamos voltar prá luta?” (risadas) E o outro crente que estava ganhando, né?! (risadas)

artes:: Você está batendo assim com os seus quadros, não é?

Aldemir:
Exatamente! Como se eu falasse: acorda, vocês estão todos dormindo! Estão todos preocupados com a vanguarda. A vanguarda não existe mais. A vanguarda hoje é você fazer o que você gosta com a pintura. A exposição de Kassel mostrou que a boa pintura é que tem a sua vez. Até mesmo o Baselitz, aquele alemão que pinta tudo de cabeça para baixo, é um pintor acadêmico.

Um pintor acadêmico. A pintura dele, Carlos, tem glacis, veladura. Esse negócio de figura de cabeça para baixo é “grupo”. Tem veladura. Tem a sutileza de cor que a pintura gestual e a pintura de vanguarda não tem.

artes:: O Salomé é um excelente exemplo disso.

Aldemir:
O Salomé vai direto à tela.

artes:: É isso! A vanguarda hoje aqui está muito bem estabelecida e apoiada pelo establishment, não é?

Aldemir:
É, porque é muito mais fácil você mostrar a sua ignorância bem grande, do que mostrar o seu conhecimento em tamanho pequeno, não é? Então é aquela história dos abstratos, dos japoneses. Hoje não incomoda mais uma pintura do Mabe, uma pintura da Thomie Othake na parede. Decora muito bem e é bonito. Então as pessoas não têm mais que se preocupar em olhar. Olham como se fosse uma luminária.

artes:: Vou fazer uma pergunta padrão, na base de repórter da TV Globo. Como você se sente agora aos sessenta?

Aldemir:
Eu sempre faço uma piada disso! Quando eu fiz cinquentão, veio uma moça para me entrevistar e me perguntou: “Aldemir, como você se sente aos 50?” Eu disse: “Minha filha, a única preocupação que eu tenho ao fazer 50 anos é que, se você arranjar uma mulher, ela diz para as amigas que arranjou um senhor de meia idade que a ajuda muito... (risadas) Então você tem todas essas coisas que a idade não permite, né? Mas ao mesmo tempo, aquela benevolência com os jovens, aquele tratamento em que você diz assim: ele está comendo soja e pensa que está comendo feijão, tá comendo tofu e pensa que está comendo queijo de coalho. (risadas) Por que ele não conhece, não tem paladar. Então você perdoa, no sentido em que ele diz assim não gosto disso, não gosto daquilo.

Eu tenho ao redor de mim um monte de jovens que eu quero bem, que eu lido com eles diariamente. O Rubens Matuck, Marquinhos Concillo, Newton Mesquita, Takashi, Yugo Mabe, é um pessoal que me ensina coisas. Eu não estou ensinando nada para eles, eles é que estão me dando uma lição de vivência contemporânea, de audácia pictórica, que os velhos não me dão. Então eles me dão, todo dia, essa aula e eu desenvolvo com essa vitalidade que eu tenho para trabalhar. Eu trabalho 8, 10 horas todo dia e faço ilustração e desenho aos sábados e domingos, em casa, para não perder o vício, para não perder a mão...

artes:: Que Deus a conserve por muitos e muitos anos!

Aldemir:
Amém!

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