capa 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24

Returne go

16 .... Ensaio Crítico artes
artes

Suite notável na nossa arte

artes
Diadorim, nanquim e tinta de imprensa, 175 x 130 cm, 1960, coleção Diaulas Riedel



Martins interfere diretamente no saber anônimo da população, oferece novos padrões de entendimento e produz uma abertura pioneira das possibilidades inerentes aos processos tecnológicos de comunicação.

Talvez, dada a integridade da motivação e da iconografia pessoal, não haja realmente limites para o artista moderno. Outra afirmação de nossa época. É por isso que o artista pode fazer padronagem de tecidos, ilustração de objetos cotidianos, decoração de formas industriais, murais e, ao mesmo tempo, conservar íntegro e em expansão o seu universo particular, a sua iconografia pessoal e a empatia entre o seu saber e o saber de seu povo.

Esta gama ilimitada de meios utilizados demonstra a participação do artista em sua época e no processo particular de seu país. Não é. simplesmente, que Aldemir Martins seja um artista múltiplo. É, antes de tudo, a verificação de que a época é múltipla e esta variedade pode ser fertilizada pelo saber individual, Não há. na ação do artista, uma discriminação entre o Bem e o Mal e ele não divide o mundo maniqueisticamente. O sol, deus de luz a presidir o seu universo cruel e veraz, é senhor de todos os seres e de todas as situações. O predador e a presa são, igualmente, criaturas do mesmo senhor.

Entende-se por que a sua obra, tão freqüentemente aproxima-se de manifestações primitivas como as africanas ou as etruscas ou, também, de anônimos registros em cavernas pré-históricas Ou, ainda, como seu desenho pode apresentar pontos de contato com o elaborado desenho oriental, realizado a partir de uma percepção zen da realidade. O processo de criação, a integração entre a mão e a mente, entre o sentimento e a memória, entre a intuição e o modelo representado, entre o ato de fazer e o ato de ser, são semelhantes. Aldemir Martins entrega-se a si mesmo. É um caçador na espreita de sua presa e é, simultaneamente, a paisagem onde está inserido, a própria presa e uma criatura semelhante às outras criaturas, obedece às mesmas leis e tem o mesmo senhor solar que ilumina e alimenta a vida.

Nas suas explosivas manifestações verbais, na enunciação das verdades intuídas e verificadas, na sua habitual não demonstração de sua realidade, Aldemir afirmou em entrevista: “O meu moderno é antigo”. O artista identifica a semelhança entre as ações humanas em várias situações. Ele não necessita discursar sobre o totêmico ou o espaço mágico da casa e da aldeia, pois, no seu trabalho, ele reafirma o caráter religioso da arte ao promover a integração entre o ver e o ser, entre o fazer e o objeto criado, entre a memória e o que é, entre a sua insaciável sede de conhecimento e o Universo como objeto de respeito, amor e fonte de vida. Aldemir Martins, dentro da modernidade de suas formas, utilizando todos os recursos con- temporâneos disponíveis, cria formas impregnadas de sacralidade.

Aldemir Martins é um caso único de unanimidade social. A sua correspondência é farta em depoimentos de escritores, poetas, pintores, anônimos. Todos encontram em seu trabalho fonte inesgotável de energia e conhecimento. Não é necessária uma explicação demorada para cada trabalho. Ele encontra eco na vida das pessoas. E, também, não é necessário ser um especialista em linguagem para perceber do que se trata. Ele ultrapassa a margem da arte brasileira e rompe com a sua secular solidão. Em Aldemir Martins não se passa essa dissociação entre público e obra de arte. Certamente, além das qualidades formais de seu trabalho, existe na sua obra uma carga de ancestralidade e do vigor primordial da sacralidade. Criar pode ser a repetição da primeira criação, a criação do mundo. Esta recuperação do mito primeiro confere sacralidade ao ato criativo, autentica o processo e comove e torna as pessoas, através da identificação, agradecidas e cativas da imagem.

Um trabalho de Aldemir Martins é facilmente identificado. O artista tem uma invisível marca registrada. Isto é um Aldemir Martins. Uma vez conhecido, ele é sempre reconhecido. Não só porque estilisticamente haja coerência entre as formas, mas porque elas, pelo seu lado, marcam, também, o interlocutor. O diálogo impede a indiferença e a indiferenciação. Podemos dizer, esta obra é de Aldemir Martins, como é comum afirmar entre a população brasileira na sua relação com o seu artista mais conhecido. E, da mesma maneira, também é possível afirmar: esta é a população brasileira. Aldemir Martins formaliza os fragmentos formais contidos nessa população, mas, mais importante do que isso, ele recupera para o seu país e a sua população o caráter sagrado de sua vida coletiva.

Aldemir Martins lembra os artistas viajantes do país, aqueles que vieram com expedições científicas e políticas e se dedicaram a registrar os usos, os costumes, as pessoas, a flora e a fauna. Na ausência de instrumentos éticos e eletrônicos de registro, o artista tinha o papel de fazer a memória do conhecimento. Uma espécie de inventário do paraíso. É forçosa esta comparação. Mas as diferenças são acentuadas e valorizam e individualizam o artista.

Em primeiro lugar, há esta individualidade. Aldemir Martins não está preocupado em ser veraz, do ponto de vista naturalístico. A sua obra não servirá para estudos acadêmicos em universidades distantes. E ele sabe do uso contemporâneo de instrumentos de registro. Mas, ao não pretender a objetividade do naturalismo, Aldemir Martins é mais veraz do que os viajantes, pois a sua observação traz para dentro da realidade a figura do observador. Ele não pretende esta objetividade desprovida da individualidade. Ao contrário, ele se revela a partir dessa individualidade. Essa diferença é notável e mareante.

Por outro lado, Aldemir Martins não está deslumbrado com o paraíso dos trópicos. A sua visão da realidade é mais complexa, não é exótica e idealizadora. A vida é bela pela sua dinâmica, não por uma visão adulcorada e falsificada. A beleza, se é que ela se coloca nesta obra, é a verificação de uma natureza feroz, lírica e comovente, iluminada panteisticamente e energizada por Apolo. O mundo é.

Aldemir Martins faz, a partir de diferenças tão marcantes, uma viagem diferente. Ele não precisa percorrer as extensões geográficas. ainda que o tenha feito, pois o seu mergulho é em direção a si mesmo.

Rememorar o existente, o visto e sabido, o conhecido e o escutado, é uma maneira de conhecer a si mesmo, Aldemir Martins se coloca. como artista, no mesmo universo de seu objeto de estudo. Ao fazer o itinerário do existente, ele descobre a si mesmo, ser atuante dessa mesma realidade. O que está lá fora é o mesmo que está aqui dentro.

Numa estada em Roma, Aldemir Martins alimentou e consolou a sua saudade com pequenos desenhos. Verdadeiras anotações, desenhos traçados diretamente, sem planejamento, anotações de sua alma e de sua saudade.

Nostalgia, saudade de seu lugar. Desenhos memorialísticos, pequenos esboços de um olhar para dentro, vivência mágica realizada através da imagem, viagem para dentro de si mesmo, itinerário imaginário de sua memória, recuperação de seu saber e oração em honra de suas emoções. Esta série memorialística é uma suite notável na nossa arte e a repetição do processo do artista. Ver e registrar o seu país como uma maneira de tornar, para si mesmo, mais evidente a sua existência. O desenho como criador do mundo e do ser. A mão empenhada na formalização de conceitos, o gesto determinado e sem correções como ponto essencial de contato, como sentimento do mundo e como verificação de que o que é, é, e a realidade não é fruto da imaginação, mas um sistema aberto e intercomunicante entre o ser e o ser do mundo.

Jacob Klintowitz


Returne Returne
site site