foto: Nelson Kon


O HOMEM NO LABIRINTO

por Jacob Klintowitz (critico de arte e escritor)

As figuras humanas nas esculturas de Horacio Kleinman estão contidas no arabesco e ele este continente que parece infinito,não se diferencia delas,não é unidade isolada,contorno que definiria o campo visual. Arabesco e figura geram um ao outro numa ação contínua e perrnanente, sem começo e término, surpreendente movimento perpétuo a conferir elevação e transcendência ao bronze de aparência estática.

0 movimento perpétuo na escultura de Horacio Kleinman cria uma concentração em si mesmo, fecha a visualidade a referências externas e elimina, de muitas maneiras, a idéia da dimensão. Qual o tamanho real destas esculturas? Elas têm, evidentemente, o tamanho de sua constituição material. Esta é a regra do mundo terreno da terceira dimensão. Mas no caso da arte estamos lidando com a projeção e materialização da imaginação e do desejo. E, neste caso, podemos projeto a escultura de Kleinman para a dimensão que nos interessa. Isso se deve às proporções de sua escultura que sugerem, permitem e convidam à monumentalidade. E se deve, verdadeiramente, a caracteristica psicológica de nos apresentar um universo cncerrado em si mesmo. Este universo se basta enquanto visualidade, esta completo e gera uma narrativa que se conta no diálogo entre a contemplador e a obra.
9
A escultura de Horacio Kleinman sugere ao espectador o muralismo. Mas aquele tipo de muralismo que é capaz de contar uma determinada história, que narra as aventuras da comunidade, a sua história épica, religiosa ou social. Mais do que a impossibilidade da inexistência da terceira dimensão, também uma sugestão recorrente, o que nos leva às aproximações com o muralismo mítico é justamente o seu caráter narrativo e o que se narra, a clareza de uma mensagem. Pode-se cntender de muitas maneiras maneiras as intenções do artista, mas esta multiplicidade possivel de interpretações não situa-se na confusão dc signos ou em ocultamentos propositais ou não.

Neste sentido, o do entendimento, a questão não está nos despistamentos ou no propósito de confundir o público. Acontece que o mundo dos homens é feito de sociedades secretas. O conhecimento é hermético, apesar do que se diz demagogicamente sobre a comunicação e o acesso de todos a tudo. Nada precisa ser ocultado. O esoterismo se dá em função da capacidade de cada um entender de terminados níveis linguisticos. Não é necessário fundar sociedades secretas, inventar regulamentos e rituais rígidos. Entende quem pode e nada há a fazer sobre isto. Com a escultura de Kleinman, a exemplo de outros artistas, uma obra de grandeza formal, ocorre este mesmo fenômeno.
9
Ainda que não soubéssemos da concomitante formação formação de arquiteto deste artista, estas composições nos remeteriam à cidade. Praças e casarios, containers de pessoas e histórias familiares. Grupamentos humanos nas vilas, cidades grotescas, trogloditas habitantes das rochas. Seres harmônicos em espaços delimitados.

A experiência humana é a da formação de cidades. Na nossa história tudo nos fala das cidades e da organização dos homens. De maneira bem determinada, o homem estruturou uma consciência desprovida de qualquer coisa que não seja ele mesmo e ele define-se por sua estrutura urbana e política. A vida dos gregos, a história dos romanos, a formação do tempo moderno, a literatura, as artes visuais, a ciência, a guerra e a paz, se passa no âmbito da história política.
9
Certamente as "cidades" de Kleinman não estão situadas num período reconhecível. Elas podem se referir aos grupos grotescos, às praças medievais,aos conglomerados do século vinte. É natural que o artista adote as formas sugeridas pela sua época, como é natural que reconheçamos a nossa visualidade diária. Em Horacio Kleinman estas formas reconhecíveis não levam mecanicamente ao conceito, mas estabelecem uma ponte comum entre o seu trabalho e o público. Sabemos do que se trata, o que impressionou retinianamente o artista e que é nosso coevo. É um dos nossos, faz parte da nossa realidade imediata ou, ao menos, do que entendemos por realidade. A empatia inicial que esta obra cria parte, na minha opinião, deste encontro aparente. Na aparência estamos na mesma situação e partilhamos dessa identidade.

Da mesma maneira que o período histótico não se revela, os personagens também permanecem incógnitos. Por associação, devido à postura das figuras, o ritmo do seu movimento interno, podemos pensar em várias situações. O artista trabalha com núcleos visuais, com situações protótipas, com modelos abstratos. As suas esculturas remetem para lembranças arquetípicas e despertam no público uma variedade grande de memórias históricas, imaginárias ou modelares. O que favorece a pesquisa e estimula a imaginação em muitas linhas culturais.
9
Estas figuras parecem dobrar-se sobre si mesmas. Outras vezes, são personagens numa lenta dança de um idealizado país oriental. Esperamos que elas contorçam as mãos levantem as sombrancelhas, girem os olhos, movimentem os pés. Tudo a nos sinalizar a lenda do encontro entre a energia feminina e a energia masculina, origem do universo conhecido que, está previsto, terminará num dia previamente determinado, quando a fusão será completa e não haverá mais sentido no conflito dos opostos.

Na escultura de Horacio Kleinman é contante a sensação de ancestralidade. É possível que estejamos diante do ritual de iniciação numa caverna só conhecida do artista.Cada escultura é uma cápsula visual que detém um momento importante da história. O escultor nos fala da sua intuição e de como tudo aconteceu. É o cronista sem cronos. Nada sabemos do acontecido, não conhecemos a caverna, as pessoas e de quando tudo isto se terá passado.
9
Nesta narração sem cronos o artista cria uma suspensão do tempo histórico e nos leva para a atemporalidade da condição humana. Talvez mais do que isto, pois a suspensão do tempo nos apresenta um ser diretamente relacionado com o universo, respondendo à sua possibilidade metafísica. Mas esta resposta não é a conexão absoluta, mas a ausência desta conexão, o encerramento do homem em sí mesmo, na sua história, na sua pura existência. Um ser conectado consigo mesmo. A angústia do contingente e da ausência da transcendência.

Horacio Kleinman é um artista de nossos dias. É agora, diante dos nossos olhos, dentro da nossa emoção, que estas cenas acontecem e nos remetem a suposições despertam memórias subjacentes ou desatam a imaginação. Imagem e ação. Certamente um artista que compartilha conosco esta emocionante ação de dar forma às imagens e se entusiasma com as possibilidades, também ele um observador, tão ilustre quanto o mais singelo observador de seu público, pois já não sabe quando a intuição terá gerado a forma ou quando a forma terá despertado a intuição, movimento sincrônico entre o fazer e o conhecimento, sem começo e término, vivência que confere virtualidades à arte e a vida.
9
Fazer para conhecer. Os signos remetem aos nossos dias: a cidade, a linguagem a inexistência do divino, a falta de horizontes, a fixação no contingente. A técnica, mesmo existente em outras épocas, é nossa, com a tecnologia disponível e a escala física e social da América do Sul. Em outra situação, em outra escala, estas esculturas ocupariam espaços públicos e teriam outras dimensões.

E o artista é diretamente filho da Renascença, centrado na figura humana, acumulando diversos conhecimentos, unindo áreas diversas.
9
A ambigüidade que a escultura de Horacio Kleinman pode despertar é o resultado da complexidade da sua linguagem. A diferença entre a arte e a comunicação comercial ou cotidiana situa-se na maneira de utilizar o repertório. Enquanto a arte articula de maneira inesperada, torna as suas formas simbólicas, a comunicação cotidiana organiza a sua mensagem de maneira redundante e já sabida. Uma nos revela o mundo e a nós mesmos, a outra nos tranqüiliza com a reafirmação do banal. Na arte, ao final, a própria natureza do repertório terá mudado e, ainda que o ponto de partida tenha sido comum, o repertório de signos disponível na tribo, teremos realidades visuais, lingüísticas, formais, distintas.

A escultura de Horacio Kleinman não se revela ao primeiro olhar. Ao contrário, ela se apresenta envolta em mistérios e é necessário que o contemplador se detenha em sua análise e penetre sob os véus que envolvem a escultura. Ela se apresenta muito simplesmente como um arabesco que contém figuras, quase sem terceira dimensão e que, de uma maneira ou outra, trata sempre da mesma questão. Estas várias possibilidades de interpretação e de abordagem, ou os diversos graus de mistérios, contrapõem-se ao hábito principal de nossa época onde todas as coisas são tomadas pela aparência e são, na verdade, na sua maioria, pura aparência.
9
Pode parecer inesperado aos que não se detiveram no assunto, mas a artetem ojeriza à aparência. Os que imaginam a atual dificuldade comunicativa entre a arte e o público uma novidade das vanguardas, enganam-se, talvez baseados numa idealização da arte do passado. Mesmo a arte totêmica das sociedades míticas e, aliás, principalmente esta, é fundada em revelações que não se comunicam ao olhar desprevenido. A nossa arte histórica, fundada no puramente humano, isenta da participação dos Deuses e da conexão entre o humano e o divino, igualmente, sempre teve um complexo sistema de comunicação com o público.

Seguidamente confundem-se manifestações datadas do circuito das artes, produtos da mídia e da moda, com a totalidade das manifestações artísticas. Isso se deve a várias causas e uma delas, das mais preponderantes, é acreditar que a mídia e a realidade são a mesma coisa. Não são; e a mídia, o sistema de comunicação, é um tipo de produto. Na absoluta maioria das vezes, nem mesmo é um produto essencialmente diferente dos outros produtos, como os jornalistas gos-tariam de acreditar. E um produto não é igual à realidade. No terreno da arte, como não poderia ser diferente, as mistificações são tantas em nossos dias que é justa a desconfiança do público. Mas não é prudente afastar-se do grande manancial da arte por causa disto. Seria a vitória do engodo e um empobrecimento da existência humana.
9
Horacio Kleinman utiliza o confronto de polaridades: cheio-vazio, fundo-figura, contorno-conteúdo, moderno-ancestral, profano-sagrado, estático-movimento. E faz mais do que isto, pois não ilustra o conceito, mas estabelece novas regras de observação e nos permite a reflexão iluminadora a partir do nosso quadro de referências. Com esta escultura não caminhamos nas trilhas já estabelecidas, fazemos o nosso próprio percurso e nos surpreendemos neste magma incógnito que é, como é próprio da arte, também o nosso magma particular.

Horacio Kleinman é um artista de sólida formação técnica e cultural. Arquiteto de intensa atividade, pintor e escultor de aprendizado tradicional, Kleinman trabalhou com o óleo com a mesma maes-tria com que, agora, trabalha com o bronze, o mármore e a madeira. No seu aprendizado, Horacio Kleinman aos 15 anos começou a es-tudar desenho e pintura com Oscar Capristo, em Bueno Aires. Em 1962 e 63 já era aluno de escultura com Peter Grippe, em Walthan, Massachussets, nos Estados Unidos. Os cursos e viagens sucederam-se: Colégio Nacional de Buenos Aires; Universidade de Brandeis e Arquitetura na Universidade de Columbia e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Nacional de Buenos Aires.
9
Kleinman, inicialmente, foi um pintor figurativo de severos tons baixos, cinzas e pretos. Uma pintura matérica, densa, intensamente trabalhada e cujo assunto mais destacado era justamente as cenas de homens e espaços entrelaçados. O assunto que transformou em motivo principal em sua posterior dedicação à escultura.

Como escultor Horacio Kleinman começou publicamente com a experiência dos grandes espaços e da comunicação direta com o público. Realizou murais de grandes dimensões nas técnicas de cerâmica e de gesso-cimento na cidade de Buenos Aires. Depois, acompanhando a própria tendência social da escultura na América do Sul, dedicou-se inteiramente às esculturas em bronze, mármore, cerâmica e madeira de formatos médios. Este novo momento do artista cor-responde à uma reflexão introspectiva, uma relativa retirada da cena artística pública, e ao mergulho na atividade arquitetônica. Durante muitos anos Horácio Kleinmam realizou poucas exposições, sempre com rigor e comedimento, estabelecendo com a sua atividade artística uma relação íntima na qual procura elementos de compreensão do mundo e de harmonização interna.
9
É evidente nesta obra a clara intenção de concretizar uma idéia determinada, uma concepção longamente amadurecida. O interesse central é sempre o homem e a sua localização no mundo, no caso, o mundo construído, o espaço humano, o universo da linguagem. O que temos nesta alegoria da vida humana no espaço construído pelo homem? Uma linguagem inteiramente concentrada nela mesmo, estrita, fechada. Não há nesta articulação lugar para mais nada fora dela mesma. Nenhuma possibilidade de transcendência. Existe o formalismo da linguagem, a criação da linguagem, a estrutura da idéia e o homem está aprisionado neste universo construído por ele mesmo. O universo, o da linguagem, aliás, que tem servido para definí-lo.

O homem habita no espaço-tempo da linguagem. O lugar do homem. O homem sem rosto. O homem-espaço. O labirinto humano. Os homens de bronze. O homem no labirinto construído pelo homem. Da mesma maneira como neste labirinto não há transcendência e, à semelhança de boa parte da arte do nosso século, não há Deus. E não existe a opressão e a ameaça externa. Nenhum Minotauro. E, igualmente, nenhuma ajuda possível. Não há fio de Ariadne. Como comentário e acréscimo à idéia tradicional de labirinto onde encontramos facilmente a entrada e com muita dificuldade a saída, em Horácio Kleinman tanto uma como outra estão vedadas, congeladas para sempre em si mesmas numa situação de absoluta exemplaridade de universo fechado.
9
O labirinto concebido por Kleinman é um mundo congelado no tempo e no espaço. Não sabemos quando começou, não sabemos quando terminará. É um labirinto que é uma impossibilidade lógica, pois não há entrada e,portanto, não há qualquer percurso para os que não estão dentro. Como labirinto não cumpre a sua função histórica, pois não permite a entrada. E quem está nele, terão entrado? Ou o labi-rinto foi construído ao redor das figuras, um entorno que se construiu em volta delas. Há, é claro, a concreta hipótese do labirinto ter sido construído por seus habitantes e, neste caso, ele seria uma casa, uma casca que o ser produz de si mesmo, uma proteção suprema, o exoesqueleto de um estranho ser.

O labirinto, tradicionalmente, é a representação do processo iniciático. O homem penetra no labirinto e as dificuldades que encontra são as suas provas. O jogo consiste em chegar ao centro e de lá encontrar a saída. O centro representa o equílibrio, a junção com o divino e, ao mesmo tempo, o centro de si mesmo.Os caminhos bifurcados, as mudanças de rumos, a ilogicidade, os círculos con-cêntricos como se vê nas naves de algumas catedrais, fazem parte do percurso do herói em direção ao interior de si mesmo, o santuário interior e ao encontro com o divino. O labirinto privilegia a intuição, a consulta à voz interior, a visão não retiniana.
9
O homem-herói não deve distrair-se com acidentes, mas estar atento ao seu percurso. O exemplo da intuição e do contato com a mensagem divina é a do oráculo cego, aquele que não tem olhos para o mundo banal, para o cotidiano, para as ilusões da matéria, mas pode se concentrar em seu interior, na voz interna, no saber sem palavras. O cego oracular desligou-se dos apegos da realidade ilusória e do emocionalismo do ego e está inteiramente entregue à emergência do divino, do indizível. O homem está cego para poder enxergar.

O desafio que se coloca é o de manter-se com a atenção focalizada no que não tem forma. Nada de distrair-se com o mutável, o perecível, o que não existência independente. Mas nada disto pode ser doado por alguma entidade. É uma conquista do próprio ser. Ele ensina a ele mesmo, ele é o seu mestre e, é correto dizer, o caminho consiste em descobrir o seu mestre que é ele mesmo. Os instrutores advertem dos perigos e orientam a procura, mas não podem instruir além do que o aluno pode instruir a si mesmo.
9
Pensa-se que o labirinto é a forma do homem representar o infinito nos seus dois aspectos que conseguimos pensar: o da eterna mutação e o do eterno retorno. A mutação eterna, a transformação permanente é representada pela espiral. E a trança significa o eterno retorno, a volta ao ponto de partida, o movimento em ciclos. Em Horacio Kleinman por este ângulo, encontramos o artista da trança, do eterno retorno, do mundo cíclico. Como deixar de observar este aspecto na obra deste artista, este conteúdo mascarado, oculto, mas presente, do mito do eterno retorno?

A sua escultura é o entrelaçamento da forma, o permanente enovelamento, a trança. Aqui pensamos ser mais forte a significação mítica, e não a antropológica, ainda que andem tão juntas e consequêntes desde o início deste século. É coerente com a estrutura formal e com as alusões explícitas à situação humana desta escultura a percepção de ciclo, retorno, volta ao ponto inicial. O tempo e o espaço estão imóveis em seu ciclo, pois permanentemente retornam ao ponto inicial.
9
O arabesco toma oculta a forma da trança que revela o mito do eterno retorno e nos coloca no labirinto kleinmaniano. Aqui o homem procura o centro da forma e o centro de si mesmo e o exato conceito deste tempo-espaço criado por ele e no qual sente-se agora prisioneiro e, talvez, mais ainda do que isto, sente-se parte indissolúvel desta estrutura. Ele e a estrutura são um só. No labirinto kleinmaniano o homem e o labirinto são uma só coisa, o emaranhado de caminhos é igual ao homem e a iniciação torna-se igual ao homem capaz da iniciação. O iniciado é o homem novo e o incapaz da iniciação, o que fracassou o que não encontrou o caminho, este nada sabe e nem mesmo percebe que esteve submetido a provas iniciáticas, o que. Já que nada conseguiu, nada percebeu. Para ele, periférico em relação ao centro, existe apenas emaranhados e confusos caminhos que levam a lugar nenhum e a vida não é senão esse caminhar de olhar retiniano (sem visão interior) em direção a lugar nenhum. A vida dos homens de bronze.


foto: Nelson Kon




9








HORÁCIO KLEINMAN
1998-2013








criação


BRASIL
Copyright © 1998-2013, ART-BONOBO.COM