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O Artista
TEXTOS
Jacob Klintowitz
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"A vida não é redutível à linguagem. A vida é maior do que a pintura. E a pintura, por sua vez, não é redutível à outro tipo de linguagem, como é a verbal. Mas a vida pode ser assinalada, analizada e simbolizada com a pintura, como faz o pintor Gilberto Salvador. E a pintura pode ser assinalada, analizada e simbolizada com a palavra, como estou fazendo. A pintura de Gilberto Salvador procura justamente esta discussão, pois opõe permanentemente os contrários, as ligações e oposições da realidade, o diálogo entre o orgânico, o ser e a coisa, a curva e a reta, o racional e o irracional, a intuição e a lógica, o impulso e a reflexão. Esta pintura é uma reflexão sobre as possibilidades vitais e as possibilidades de linguagem, o que nos leva a reflexão inicial sobre a própria simbolização humana. E se a vida não é redutível à linguagem, mas encontra uma correspondência simbólica na criação lingüística, isto explica a permanente insatisfação do artista com o resultado de seu trabalho, a sua constante emulação e a sua contribuição específica, enriquecendo o acervo simbólico do entendimento humano. Ou seja, o trabalho (a pintura) enriquece o entendimento.
Gilberto Salvador tem a discussão entre os opostos como uma constante temática de sua obra. Esta discussão se estabelece visualmente através de linhas curvas e retas. Cromaticamente a áreas de estrema serenidade cores puras contrapostas a áreas gestuais, explosivas, dinâmicas. Movimento gestual descontínuo, intuitivo em diálogo com áreas planejadas, pinceladas contínuas. Violência e sangue, reflexão e equilíbrio. Uma consideração sobre o nosso mundo, um comentário visual da realidade social. Os recursos visuais aumentam constantemente neste artista. Agora ele considera contribuição abstrata e emocional da pintura de nosso século, incorpora estes processos ao seu trabalho e, portanto, decide-se por todo o instrumental visceral.
Há certamente uma linha melódica neste trabalho, uma percepção sensível do som e do espaço, alguma coisa que se passa entre os signos dispostos ao longo do percurso da tela, uma discreção e uma intimidade com a noção do universo, dos espaços das intuições cósmicas e terrenas. Ë um trabalho que se permite a sutileza, os azuis profundos, o amos as cores puras, a sinalização do gesto feito de rasgada poesia em púrpura. Um vôo do artista, um movimento espacial construído com azuis, púrpuras, amarelos, meditação e explosões. Uma alça de mira, um tiro de fuzil e uma mudança de ponto de vista repentina. O artista é o projétil e o alvo. O artista é o encontro.
O trabalho de Gilberto Salvador utiliza-se de animais especialmente o leão, o pássaro e o veado. Estes animais são divididos, pontilhados, sugeridos, projetados no espaço, esmagados, livres. Há um uso destes signos como símbolos do impulso e da natureza, da realidade do homem no seu habitat. E há, igualmente, a consideração sobre a virtualidade do movimento e do ser, existência em projeção, o homem e a sua fantasia. A pintura de Gilberto Salvador propõe questões graves, discute-as visualmente, é inteiramente coerente em seu caminho e se oferece, ao mesmo tempo, com exemplo de uma arte feita com responsabilidade e talento. Uma discussão estética e uma contribuição ao entendimento."
Jacob Klintowitz
agosto/1981
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