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Entrevista para a revista GO WHERE? São Paulo

Gilberto Salvador e Xangô: uma convivência profíqüa

Brasitaloespanhol, cordial, corinthiano, mangia preti, organizadíssimo sem ser chato, vetor motivante da sua obra, etcetera. Corresponde?
GILBERTO SALVADOR:Corresponde. Não sou um mutante, apesar da experiência, das circunstâncias e da bola ser redonda... (sorriso)

Em 64 O Revoltado, Os Cangaceiros, o expressionismo, até na sua fase Pop de 68 há crítica política. Aí você se afasta do engajamento político...
A obra de arte devia mudar a sociedade, denunciar... em 68/69 achei que um artista que se prende a uma idéia, seja ela qual for, acaba fazendo propaganda e assumi um compromisso maior, com a expressão plástica. Hoje prefiro fazer política partidária. Sempre tive uma visão crítica da sociedade.

Houve uma coincidência entre a sua consciência de que arte é mais que política, a faculdade de arquitetura e a passagem para outras técnicas, outros materiais?
A arquitetura me ajudou como instrumento técnico e entender melhor o processo de criação artística. Sem essa formação, o Vôo de Xangô não teria saído. A coincidência é inegável: na Bienal de 67 participei com desenhos sobre a guerra do Vietnã, o anti-militarismo, contra o golpe de 64. Na de 69 só participei com esculturas. Numa entrevista ao Estado de São Paulo, desse período, digo que meu compromisso político é com a liberdade de expressão.

Ela existe na Bienal, atualmente muito criticada.
Os militares não conseguiram intervir na Bienal. O engraçado é que, justamente quando eles deixaram o poder, a estrutura democrática da Bienal é arrebentada e lhe é imposta a ditadura do curador. Deixa de ser uma mostra e se torna evento publicitário, exposição temática. Com os militares a Bienal custava 4/5 milhões de dólares e altamente expressiva. Depois deles criaram o curador, centralizaram as idéias e a Bienal passou a custar 12 milhões, depois 15, hoje se fala em 40. A questão é ideológica e financeira, seguramente não democrática e muito menos representativa. (risadinha irônica)

Como você define a sua fase que culminou com uma exposição na galeria Paulo Prado, em 82, e depois no MASP, em 85?
Na Bienal Latino-Americana apresentei 20 desenhos de temática indígena. Com a arte indígena aprendi sobre composição mais do que tinha estudado antes, a relação quase zen entre o homem e a natureza... naquele momento havia, e ainda existe hoje, uma certa ditadura da critica de arte... levava em conta até suas opções sexuais... bem, numa entrevista à Ella Dürst, na TV Cultura, começo cantando Aquarela do Brasil... a identidade de uma nação, não o nacionalismo, é importante. A obra do Antônio Carlos Jobim, do Villa Lobos, também fez com que a minha obra se ligasse ao cromatismo brasileiro, a uma maneira brasileira de me expressar. Na Paulo Prado havia pássaros e plantas, nossa natureza. O titulo era uma sugestão amorosa entre o artista e a sua obra. Nunca me desvinculei dela. Meu orixá é xangô, um guerreiro, um batalhador, mas apesar de ser um lutador, quero coisas gostosas. A questão lírica e a amorosa são fundamentais.

Nas gravuras O Canto da Sereia, o lirismo é evidente, mas você confia mais na necessidade da palavra para complementar a obra?
A maioria dos artistas, ao dar título a uma música, a um livro, está de certa forma dirigindo a emoção de quem vai ouvir a música ou ler o livro.

Em 89, na série Moedas, o signo e o material mudam. Tudo é mais cerebral, você está longe do gesto espontâneo. Menos confiança em quem lê a sua obra?
Não acho que seja menos confiança, Na série das Moedas não estava muito preocupado com o público. Quando crio, estou preocupado é comigo mesmo. Altamente egoísta no sentido filosófico da palavra (risadinha). Fazendo aquela série eu me sentia livre. Ela é importante, gerou o que há pouco você percebeu nas Las Niñas que estou fazendo. Sem As Moedas, Las Ninhas não aconteceriam. Só que, nestas, intervem a questão sexual.

A exposição dos trinta anos, em 95, no MASP, e a de 96, em Curitiba, que absorvem As Moedas, foram uma síntese?
Síntese e retrospectiva são palavras das quais não gosto. Você só sintetiza o que está terminado.

Quando pedi a Maria Bonomi que me fizesse uma síntese, ela me disse; "Pera aí, o percurso é melhor parte da viagem!"
Pois é. A afinidade entre eu e a Maria é grande. Se, enquanto estiver vivo, alguém fizer uma retrospectiva minha, não conte com a minha presença. Seria como ir ao meu próprio enterro (careta de azar). Tenho muito tesão, quero estar de pau duro até o final dos meus dias, entende? (grande risada)

Admite influências na sua obra ou acha que só teve o seu caminho próprio? Aquele grupinho corynthiano, Aldemir, Clóvis Graciano, Ianelli, Caciporé, Claudio Tozzi, Granato, Glauco Pinto de Moraes, os artistas....
...conviviam mais. De certa forma ainda convivem. Eu convido colegas a ver obras recentes e para discutí-las. Valdemar Cordeiro, Aldemir, Clóvis Graciano, artistas incógnitos, Arte Plumária, o artista tem influências, sempre. Aprendi muito com o adereço indígena, absorvi na minha linguagem a maneira em que o índio pega aqueles pedaços de bambu, soma, põe uma pena em cima, essa liberdade de saber compor.. sua geometria... na minha adolescência foi fundamental um pintor super acadêmico, o Borges Mulato, hoje quase não se fala nele. Vivia no atelier dele, me ajudou muito do ponto de vista técnico, do uso da luz. Eu uso a luz. Aldemir Martins sempre foi uma pessoa presente, também como amigo.

Na exposição das obras que você, Emanuel Araújo, Caciporé Torres e a Ione Saldanha fizeram para os 50 anos da Securit, lá no MIS, você falava da alegria de ser artista...
... Boa lembrança. Um crítico perguntou ao Calder: Quando você acha que uma obra sua termina? Na hora do almoço, respondeu. Essa relação simples com a vida, que inclui criar, comer, fazer amor, viver, amar os filhos... é a alegria de viver. A alegria do artista é o fato de ser tal. Para Vittorio Gassman as coisas mais importantes eram: sua obra, seus filhos, suas mulheres, nesta ordem. Assino embaixo. Minha relação com a vida é visceral. O sexo, por exemplo.. na minha obra pode não ser explícito, mas é constante... (sorriso)

Já que estamos falando disso, agradecendo o exemplar que você me deu, fale da Cantarida.
Queria fazer um discurso sobre o ato sexual, mas nada de sacanagem. Nas seis peças que fiz há lirismo, a relação do masculino e do feminino é muito equilibrada. Algumas são uma ode à mulher.

Como o quadro de Gustave Courbet, pudicamente escondido atrás de um biombo, uma maravilhosa xoxota, viva, natural, a origem da vida... O público fica lá, fascinado.
Lembro... na Cantarida tem também Bukoviski, Kama Sutra, uma serie de fatores... o que são esteticamente a sexualidade, o ato sexual, o prazer da mulher? Tentei transcrever, não consegui. Mas em Porto Alegre, em 1984, entrou na minha exposição uma moça. Olhou, olhou, e disse: Nossa, são orgasmos! Eram quadros com pássaros. A crítica de arte não tem essa percepção, não entra no âmago da expressão artística. Criou a palavra vanguarda para a arte, totalmente inadequada. A arte é extratemporal...

Tudo nela vem antes, durante e depois dela mesma...
... nada aconteceria se algo não tivesse acontecido antes. Sem o Courrèges, na década de 60, não teríamos a moda atual. Importante é a sublimação que o artista faz da inter-relação entre as várias maneiras de expressar o tempo em que vive, o que ele vai significar na sua obra e vice-versa.

Qual é a sua opinião sobre o mercado da arte atual, aqui e lá fora?
Eu só tenho uma fonte de renda, o meu trabalho. O artista tem que estar atento a não seguir modismos. As quatro últimas bienais de São Paulo e de Veneza, e algumas de Kassel, têm uma forte correspondência com o mercado, apesar da crítica achar que não. É o aspecto institucional do mercado. O consumo de obras de arte, no Brasil, ainda é pequeno, o mercado está em formação. Não temos uma tradição cultural, como a Europa. Os Estados Unidos, apesar de ser um país jovem como o nosso, levam a sério a produção cultural deles. Por outro lado nós podemos apresentar o novo com muito mais tranqüilidade do que o europeu.

O menor sentido critico do consumidor rebaixa o nível dessa massa de gente que produz arte fazendo quadrinhos?
Ou paredes... segue a moda. Isso compromete o mercado mas não a cultura. Há um nivelamento por baixo, mas os bons artistas permanecem bons artistas. Quanto ao mercado, não temos marchands bem formados, só vendedores de obras de arte. Não assumem uma determinada tendência para montar um trabalho profundo de divulgação de um grupo de artistas, preocupados com a posição da cultura brasileira. Um marchand, entre aspas, me disse: Meu espaço não é de opinião, é para vender obras de arte. Uma idiotice, um marchand faz ó mercado quando opina sobre o que esta vendendo, porque tem uma estrutura cultural razoável. A venda é uma conseqüência.

Nos anos 50, criticos, artistas, inteletuais, escritores se frequentavam. Os criticos indicavam o caminho, isso é bom isso é ruim...
Hoje os criticos da maioria da mídia são reporteres. Falam sem embasamentos ou são colonizados. Opinião própria implica compromissos...

Você disse que o computador completa, mas a maquina que junta tudo e produz é só o homem. Oposição ao computador na produção artística?
Valdemar Cordeiro nos trouxe a discussão sobre Computer Art. Isso vem através do grupo Julio Le Park, do "Optical Art", da França, que, de uma certa forma, tem uns rebatimentos com Eduardo MacIntire, Miguel Angel Vidal e Ari Brizzi. Na época, o computador fascinava mas os artistas ainda o usavam de forma limitada. Valdemar mudou minha maneira de entender minha própria obra. Minhas peças na Bienal de 69 tinham elementos desenvolvidos no computador. Este ano participo da Bienal do México que pede uma peça feita na técnica tradicional e outra usando a digital. Alguns pegaram uma gravura e a digitalizaram. Não mexo com o computador e chamei um técnico, dirigi a cabeça dele e tivemos uma peça digitalizada. Eu entendi o computador como um pincel, uma tela, uma ferramenta. A tecnologia não é ciência. Com a ciência e a arte dá para ter uma conversa de igual para igual; a tecnologia não, está a meu serviço.

Grandes espaços, arte pública?
Gosto. Fiz algumas obras grandes. Um painel em cerâmica na fachada de um prédio aqui em São Paulo, 80 x 8m. No caso do Vôo de Xango, o Metrô vinha há 12 anos me convidando a fazer uma peça. Usar tecnologia de ponta foi a opção para dar-lhe a leveza necessária. É uma obra grande. Um motorista de taxi me perguntou o que eu fazia e disse que era artista plástico. Você não tem idéia, um camarada fez uma escultura lá no bairro onde eu moro, gigantesca... e falou da peça, o que significava para ele, e eu quieto. Quando calou, disse: Quem fez a peça fui eu. Ficou emocionado, ao chegarmos em casa dei-lhe um catálogo. Ao fazer arte pública você está falando com o povo. Juntei os meninos lá do bairro que pichavam tudo e falei com eles sobre escultura africana. Ficaram a tarde inteira ouvindo e minha escultura não é pichada. Houve identificação. A religiosidade africana está na cultura do povo. (sorriso de satisafação)

Mas o passado africano ainda não foi absorvido aqui.
Não, mas o nosso movimento negro está mais ligado às suas essências do que o norteamericano, que absorveu o Cristianismo. Aqui não. Uma vez uma pessoa comentou-me que o Candomblé é uma religião primitiva! Eu falei: Primitivo é algo que está emergindo. Se for para emergir, o Candomblé tem quatro mil anos. O Cristianismo quantos anos tem?

Conta como foi episódio Hahaha?
Hahaha é uma obra de 2m x 8. Eram duas. A Um, Dois, Três, consegui recuperar. O Hahaha... Bem, ganhei um prêmio de aquisição no primeiro Salão de Arte Contemporânea de Santos. Era 68, uma tropa invadiu o salão, retirou a obra e saiu à minha procura. Me safei mas a peça foi destruída por um boçal que comandava o forte Itaipuna. Encontrei pedaços dela no Centro Cultural de Santos. Quando o PT assumiu a prefeitura, me propus a refaze-la e doá-la à cidade, desde que a obra ficasse em lugar público. O PT não aceitou... talvez o episódio tenha sido o divisor que você mencionou no começo da entrevista. Eu era garoto, fiquei com medo. Durante meses não pintei, não desenhei, não fiz escultura, nada. (longo momento de silêncio)

Você é corajoso, aliás, mais sábio do que corajoso. Saber lidar com limitações é do sábio.
A deficiência física me obrigou a ser corajoso e sábio. Meus pais me alentaram a procurar o meu próprio caminho. Minha personalidade foi desenhada pela minha deficiência física e pela liberdade que conquistei.

Esporte, cozinha?
Nadei muito, mergulho e velejo sempre que posso. Gosto de criar na cozinha.

Para terminar: quem é Gilberto Salvador? E uma frase conclusiva.
Sou um amante da vida e o sonho faz com que a vivamos. Frase: o artista que estiver sincronizado com o mundo, ajuda a empurra-lo para frente (alegre risada final).

Mario Lorenzi
novembro/2000














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