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Carta aos meus colegas e amigos
Meus caros:
Aproveito o espaço de minha exposição para manifestar alguns sentimentos.
Para mim a manifestação artística é fundamentalmente o desejo e a perspectiva da expressão
integral do homem, onde suas necessidades, ansiedades, desejos, etc. se concretizam de forma
mágica, é uma proposta para a realidade e não uma reação a ela, "temos que romper com o
realismo, que é em última essência a sobrevivência do espírito burguês que, demostrando
o medo ao sonho e ao delírio, revela também o temor do desmascaramento" (Glauber Rocha).
Brincar com imagens de animais, homens e propor uma nova realidade, me faz não aceitar este
realismo piegas, decrépto, em que a arte brasileira vem se enfiando, dia a dia, quase que
manifestando uma volta ao academismo realista, só que usando " macetes" e dourando a pílula
de forma modernosa ou vanguardeira, como querem alguns, o sonho não acabou e "o
inconsciennte é um ato não acabado" como dizia Glauber. Eu quero gerar emoções, sentimentos
onde o gesto do homem e dos bichos se harmonizam, para tanto a cor, elemento execrado pelo
pseudo vanguarda brasileira na década de 70, é, no meu entender, o motivo básico dos meus
trabalhos, pois cor é essencialmente emoção, a seda azul da maça que o diga.
Precisamos nos conscientizar que vivemos num País "sui generis" onde Kafta simplismente não
existiria, pois a produção de bananas, pitangas, açaís, coqueiros, abacaxis, jacarés, sol,
praias, acarajés e, principalmente, amor ultrapassa o sentimento do medo, que é a antítese
da somatória amor. Dentro desta perspectiva a minha proposta não se limita a uma expressão
estética média, pois, para mim o criar está diretamente envolvido com o amor, viver com
preconceito, é, no meu entender, no mínimo um não propor e sim um reagir e o artista que
propõe uma nova realidade não reage, ele age, e é neste sentido que me coloco como homem.
Quando dou um trabalho concluído fisicamente, tenho a sensação do prazer da vida, é isto que
gostaria de dar=lhes. Beijos a todos.
Gilberto Salvador 1985
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