"Seis anos após sua ultima mostra individual, em São Paulo, Martins de Porangaba volta a expor. A ausência não foi causada por falta de espaço para exibição publica de sua obra, já que o interesse por ela tem sido constante, dentro dos limites do sistema de arte. Nem seu afastamento físico da cidade de São Paulo, base de sua carreira artística, abalou o desejo do publico de ver seu trabalho e, eventualmente, de adquiri-lo.
É que Porangaba tem uma relação com o tempo diversa do que ocorre com a maioria das pessoas. Para ele o tempo "passa mais devagar". Está convicto de que o tempo só retém as coisas que são feitas com ele.
Presentemente, o tempo não é apenas período na realização da obra de Martins de Porangaba, elaborada lentamente, algumas levando anos para serem acabadas. Por isso algumas ostentam datas múltiplas. É tema, matéria prima, leitmotiv, objeto de reflexão. E pedra de toque de sua pintura atual.
Porangaba criou seu próprio mundo e uma maneira particular de expressá-lo através do desenho e da pintura. O centro de logístico desse universo é seu ateliê, um grande ateliê localizado em sua pequena Porangaba.
No ateliê, Porangaba trabalha com um repertório de imagens que se formou ao longo de 35 anos de atividades artísticas e que constitui seu vocabulário básico. Estas imagens surgem transfiguradas, relacionadas de formas diferentes, de acordo com o estado de alma do artista, mas semelhante em sua maneira, em sua forma de expressão, já que Porangaba desenvolveu uma linguagem plástica própria e inconfundível. Estas imagens, diluídas numa plástica abstratizante e plasmada poeticamente no espaço delimitado da tela, tem a marca misteriosa do tempo e da vida.
O tempo nem sempre é, como queria Ovídio, um "devorador de coisas". Ele podia ser, ao contrário, um criador de coisas. No caso de Martins de Porangaba, é o gerador de sua obra. Uma obra que certamente vai resistir ao tempo."