"Um jovem encantado com o grande sol vermelho de cada poente, de cada aurora, enternecido com cada folha e cada flor ou cada espinho de seu universo de cáctus. Cáctus? Não! Plantas suculentas de mil formas irreais! Um jovem que viaja pelas galáxias policores sem ao menos precisar fechar os olhos que jamais se cansam de descobrir o amanha. Um jovem tímido até inibido, que coleciona planetas e perspectivas de estrelas. Um jovem que chora diante da inocência porque carrega a inocência de todas as criaturas que ainda conservam o ultimo brinquedo quebrado. Um jovem que encontrou a arca perdida, o horizonte perdido, a raiz perdida e transformou tudo em alma e luz. Um jovem de 77 anos que furaram séculos, porque aprendeu a renascer em cada olhar, em cada pedra, em cada susto, em cada descoberta. Um jovem brasileiro nascido na Alemanha, poeta desenhista gravurista ilustrador visionário pintor, puro, grande e humilde como a obra de deus, esse é Walter Lewy. Começou seus estudos em Dortmund e os nazistas fecharam sua primeira exposição. Proibido de viver a arte na primeira Pátria, imigrou para nossa terra em 37. em 39 já se integrava em cores e intenções no moderno movimento da pintura brasileira. Trazia na bagagem o talento, a carpintaria e os modelos do realismo mágico de Otto Dix, de George Grosz, o espanto de Júlio Verne, e de Pöe e de Wells, com seus corvos e seus marcianos. A limpeza e amplavisão de Franz Post tocava o jovem como uma brisa leve, enquanto Salvador Dali, cabotino e irreverente, o seduzia e o violentava com explosões de ectoplasmas. Até encontrar o seu próprio caminho entre os canteiros, na companhia pioneira de Max Ernst, Tanguy e Magritte. Numa pequena pensão da alameda Barão de Limeira fez sua primeira cama e seus primeiros amigos brasileiros. Empregou-se como layout-man, letrista e arte-finalista na velha De Carli e na nova Lintas Publicidade, depois free-lancer da Mertinelli, Santos & Santos e Thompson Propaganda. Inicio a fase que ele mesmo chama de surrealismo primário. No I Salão das Indistrias, conheceu o grupo Santa Helena. Com Graciano, Oswald de Andrade Filho, Bonadei, Scliar, Livio Abramo, Manoel Martins e outros, gravou em chapas Hollerith o famoso "Álbum n. I". Não havia surrealismo instalado no Brasil e Walter abria os anos-luz da busca espacial com sua primeira exposição, no atelier de Clóvis Graciano. Movimentou, surpreendeu, virou discussão. Nesse tempo era difícil vender quadro e mais difícil viver deles. As obras eram quase sempre dadas a quem tivesse parede, inteligência e gosto. Os críticos, porém, já enxergavam através da janela cósmica de Walter. Sergio Milliet o definia em 62 como o "mestre do absurdo poético, formas em liberdade, mundo fantástico, domínio do instrumento de trabalho, limpeza de execução, harmonia, colorido de valores para o retrato da vida futura, se renovado sempre, mas continuando ele mesmo". O Walter que nega a moda do dia, entra no labirinto e vai até o fim. Arnaldo Pedroso d'Horta vê nele o "sem clichê", senhor dos "desdobramentos contínuos". Geraldo Ferraz vai alem e afirma que "a folha de um cáctus, uma flor, muita vez é o ponto de partida de um tema inteiro e, em torno, a paisagem, com o universo presente, se forma e se envolve tudo no inusitado mágico de uma revelação". Ou "o maior nome da representação brasileira na X Bienal de S. Paulo".Quirino da Silva encontra em Walter os "impulsos emotivos ora racionais ora irreais, mas nunca pré-estabelecidos". Um dos maiores apaixonados pela ficção cientifica, possui mais de mil volumes, Walter não lia os quadrinhos de Alex Raymond. Mas se encantou com o Flash Gordon do velho seriado com Larry Buster Crabbe, assistindo no pulgueiro Cine-Mundi, da praça da Sé, nos baixos do prédio Santa helena. Em 65, ganhou o "Governador do Estado", seu primeiro prêmio. Participou da 1, 2, 3, 6, 8 e 10 Bienal. Expôs em Tóquio e Paris. Mestre da composição, dos nossos maiores desenhistas, seus estudos a lápis, que coleciona através dos anos e dos ventos, são um dos mais belos repertórios de beleza, agilidade criativa e inspiração
espontânea, que muito pouca gente já pode ver. Um dia, esses desenhos deverão ser publicados, para que o tesouro possa ser dividido e Walter semeado em sua essência e seu mistério. André Breton, o primeiro iniciado, diz que o "surrealismo é a expressão de funcionamento real do pensamento. E não há nada mais duradouro. A capacidade de evasão, o fantástico, o sobrenatural...".Walter completa que "o surrealismo oferece e exercita a soma de todas as manifestações artísticas do nosso tempo. A força criadora do surrealismo abrange tudo!" mas é Walter Lewy um surrealista? Ele torna os seres transparentes, mutilados, abre quadrados em seus tórax ou enfia infinitos em seus olhos e rosas e tarântulas em seu sexo? Não! Walter mostra tudo por inteiro. Manipula o real e o aliado a outros mundos, outras paisagens, outras luzes, outros planetas. Walter traz à tela o teatro da criação, viaja pelo s quasares, atinge as bordas das galáxias e planta a mão pequena do homem em todas as dimensões.
Inventa e reinventa sua própria gravitação, transforma em móbiles os seres e as coisas. Mas mostra tudo por inteiro. Poe tudo no seu lugar em alguma parte do cérebro ou do espaço. Não! Walter não é um surrealista. Ou, pelo menos, não é, "apenas" um surrealista. Quem afirma isto é "apenas" um surrealista. Quem afirma isto é José Roberto Bortoletto, que acompanha e coleciona Walter Lewy há muitos anos, desde os oníricos de 39, às torres e navios fantasmas de 50, às viagens cósmicas de 60, às conquistas dos novos planetas de 70 e aos computadores absurdos na água, ainda em estudos, deste final de 82. E José Roberto, que responde por esta mostra de um Walter cada vez mais jovem e projetado em sua propulsão mutante, tem razão. Walter Lewy é um dimensionista fantástico. Tem o universo em seus braços abertos e o transforma em explosão lírica, em auroras, tardes e poentes luminosos, mas sempre tão surpreendentes quanto os buracos negros que devoram a matéria ou quanto o espanto da namorada descobre o amor.
Nos olhos, Walter tem espectroscópios, no cérebro, os abismos celestes, na alma, a grandeza e a humildade dos puros, nas mãos, a mágica dos ourives."
Walter levy.
"Ai está.
Os quadros expostos na Uirapuru são apenas um gesto vivo desse balé de prótons, elétrons e criaturas, que dão musica ao seu universo de mais de cinco mil telas, todas com luz própria."