"O surrealismo de Walter Lewy nasceu em Dortmund, na Alemanha, quando ele começou a fazer gravuras e os nazistas fecharam sua primeira exposição. O tropical veio depois. Até confifurar seu destinos em São Paulo, percorreu um longo caminho não faltaram as plantas suculentas nem um profundo estranhamento.
A botânica é uma paixão antiga de Lewy, que nesses seus 50 anos de Brasil nunca deixou de colecior plantas e inspirar-se nelas. O estranhamento vem de berço. É tímido e retraído por natureza e foi judeu na Alemanha pré-hitlerista. Seus pais se dedicavam ao comercio de roupas. Foram cremados nos fornos do Fuhrer. Nessa época, 1937, Lewy desembarcou no Brasil. No mesmo ano, toda a arte moderna produzida na Alemanha foi executada como arte degenerada, em famosa exposição de Munique. Durante os dois primeiros anos no país, Lewy não conseguiu pintar.
Quando conseguiu acreditar na própria sobrevivência, voltou aos pinceis. O grupo Santa Helena acolheu-o de braços abertos. A primeira exposição brasileira foi o ateliê de Clóvis Graciano. Nos anos 60, o crítico Sergio Milliet definiu-o como "mestre do absurdo poético", Arnaldo Pedroso d'Horta viu nele o "sem clichê" e Geraldo Ferraz saudou-o como "o maior nome da representação brasileira da Bienal de São Paulo."
Depois os ventos mudaram.
Aos 85 anos de idade em novembro, o único e ultimo surrealista tropical tem plena consciência de sua arte poética ("Não sou artista plástico, sou pintor artístico"). Suas relações com o surrelismo já foram mais quentes. Não da título as obras ("Pintura não é literatura. Se dou um título já dou uma opinião"). Ao lado da assinatura, no rodapé das telas, sempre imprimo o polegar direito. Hoje, a cor e a definição o preocupam ("O segredo é como tirar de uma palheta tão suja uma pintura tão limpa").
Na Alemanha, pertenceu ao movimento Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade), de um grupo de artistas influenciados pelo figurativo estranho e incongruente de De Chirico, italiano que viveu em Munique e que gostava de Shopenhauer e Nietzche. Nos anos 20 eles pintavam em corrente contraria à do abstracionismo e do expressionismo e refletiam o sentimento geral de resignação e cinismo, após as exuberantes esperanças da Republica de Weimar. Não resistiram às botas de Hitler, que suspeitava, em suas obras,
críticas às artes da guerra e da tecnologia. Um dos seus sobreviventes nos trópicos é Walter Lewy. A sua pintura, híbrida como o próprio país que o adotou, não é fácil de entender e tampouco classificar. O imobilismo transcende e incomoda. Seus seres aspiram às dimensões para telas, que ele reduz a massa cromática plasmadas e planta nos universos de Julio Verne. Poe, Well e Flash Gorden. A pintura de Lewy soa como um clique de uma fotografia fantástica. Não discute os limites do quadrado. Esse olhar gelado sobre o estranhamento da condição humana não admite a
falência que alguns lhe atribuem, porque a falência não habita os seus espaços.
E, com ternura, Lewy insiste há 50 anos que o surrealismo não pode acabar: "Ele é o nosso cotidiano".
Norma Freire
Estado de São Paulo
13 / 04 / 90
"... Do período em que estudei e integrei o grupo do realismo mágico, ficou-me a lembrança de ter conhecido os melhores pintores da minha terra natal e de ter travado contato com as artes plásticas de uma forma sistemática. Do realismo mágico, ficou-me como uma abertura para o surrealismo, uma espécie de transição...
...Acredito que o surrealismo tenha sido, para mim, uma necessidade de renovação, não só adequada ao momento (de entre-guerras) que vivíamos, mas inclusive uma entrada num campo inesgotável, renova-se sempre e, pelo se próprio conteúdo, permanece atual..."
Walter Lewy
"Não teve o surrealismo, no Brasil, grande número de adeptos. ...Walter Lewy e', em São Paulo, um dos representantes mais acatados dessa tendência e dos mais fieis a ela. Depois de uma fase de deformação da figura e da exploração do absurdo poético, passou pela experiência de formas em liberdade e chegou, afinal, à pintura do mundo de fantasia cósmica em que se encontra. Qualquer que tenha sido sua orientação, uma coisa nele sempre revelou a presença de um pintor de verdade: o domínio de seu instrumento de trabalho, visível na limpeza de execução, na consciente harmonia do colorido e dos valores"
Sergio Milliet
1962
"Numa época de contradições e de dramas profundos, Walter Lewy cria seu mundo pictórico imaginário, povoado de planetas, rochas e plantas estranhas. Um mundo muitas vezes trágico, de imensa quietude, desolado, mas nem por isso com a Tonica constante da ausência de vida: há também uma esperança, traduzida num jogo de luz que entreabre por meio de um arco, de uma fechadura, ou se projeta pelos céus em forma de bolhas coloridas ou de um núcleo qualquer tocado pelo homem fantástico de seu imaginário.
Em seu lírico mundo de mistério, fundem-se, na forma, o ser humano e o vegetal. Folhas choram ou arvores assumem os delineamentos do corpo feminino, as linhas ondeantes que compõem a paisagem tomam forma de seios que brotam da terra ou do tronco de uma arvore ou pairam nos céus, como nuvens, deixando cair gotas lácteas e transparentes. Seu mundo é sóbrio e de triste solidão. Mesmo quando o homem está presente, a paisagem é deserta. Mas o homem é forte: captura gotas gigantescas que pairam no ar ou mesmo um planeta petriforme que flutua sobre a paisagem infinita. No seu surrealismo inesgotável, Walter Lewy é um artista fértil na criação plástica, um pesquisador incansável na busca de novos caminhos."
Lisbeth Rebolo Gonçalves
1974
"Nos seus quadros e desenhos, vivemos um mundo que cresce e floresce por si. Mesmo quando não aparecem formas do mundo orgânico, de plantas ou de figuras, as pedras cristalinas e as ondulações do chão também crescem e florescem. Podemos dizer, então, que ele não é puramente formalista, não seguiu apenas um manifesto na sua atuação, no seu sistema de composições; ele nos traz algo do fundo da natureza e de nós... A seqüência dos quadros de Walter Lewy nos dá uma lição soberba da dialética viva, da estética e da moral das imagens surrealistas. Com toda sua filosofia, com toda a afinação psicológica, nas quais ele fundou sua obra, aparecem no seu mundo imaginário.
Não existe nisso uma terminologia da negativa; eles apenas buscam novas visões, um novo sistema de encarar fenômenos no visual. Não falta o simbólico, nem a aproximação sensual; sentimo-nos diante de obras verdadeiramente de criação própria, que destacam a sabedoria do artista, mestre no seu estilo pessoal. Walter Lewy está ao lado dos grandes nomes do surrealismo e para nós ele está em evidencia, está presente."
W. Pfeiffer
1974
"... O surrealismo, segundo a própria definição de seu fundador, André Breton, é a expressão do funcionamento real do pensamento. E não há nada mais duradouro, desde que haja humanidade, do que o próprio pensamento. A sua mobilidade e capacidade de evasão, o fantástico e o sobre-natural, não diretamente captado pela atividade fiscalizadora da razão é que pode encontrar plena representação entre os grandes surrealistas como Ives Tanguy, René Magritte, Marx Ernest e Walter Lewy... Até a verdadeira, em todos os sentidos, é aquela que faz o espectador ficar intrigado, abismado e, ao mesmo tempo, maravilhado com as possibilidades comunicativas conseguidas pelo autor. Na época em que vivemos, as oportunidades de comunicação verbal estão de tal maneira onipresentes, que se nos parece até difícil haver outras modalidades através das quais possamos transmitir nossos sentimentos de forma mais abrangente e mais duradoura...
...Não seria necessário dizer aqui o nome da pessoa responsável no Brasil pela maior obra continuada de arte plena e verdadeira em todos os sentidos... Em todo caso, não há entre nós apreciador de arte que não conheça Walter Lewy, homem de vida recolhida no meio de sua imensa coleção de plantas cactídeas e vasta biblioteca...
...A obra de Walter Lewy é sóbria, sofisticada e erudita como o seu autor. Seus hábitos simples e quase abstêmios contrastam, violentamente, com os cosmos imaginativo e absorvente, sistematicamente impresso nas telas, uma após outras, regularmente, causando pasmo pelas infinitas possibilidades de renovação."