Regina e Arte Clube Ltda
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Eduardo Iglesias




O Artista

"Em 1978, apresentei numa exposição em São Paulo, quatro trabalhos que denominei "As quatro Estações".

Foi o ponto de partida, para uma fase que acredito, dure até hoje.

Embora tenha acrescentado e eliminado muita coisa, pesquisado e utilizado outras técnicas, outras cores e até mesmo alguns trabalhos com total ausência de cor, como alguns relevos em papel, o azul ainda é a cor predominante.

O primeiro quadro azul é de 1968 - "Caminhada Rumo Sul".

Até então, as cores eram ocre, amarelo, verde e branco, em trabalhos como: "A Feira", "Retirantes", "Passarinheiro" e "Nordeste II".

Atualmente sinto que algo está mudando em meus trabalhos. Percebo que, não tenho mais preocupação de interpretar, mas sim generalizar, de forma que, o trabalho possa ser interpretado diferentemente e de acordo cm a sensibilidade e emoção de cada um.

Não tenho a intenção nem a vontade de saber porque, ou o que mudou.

O essencial é trabalhar.

Estou completando 50 anos de idade, e sei que ainda há muito para fazer.

Cada idéia é apenas uma possibilidade, já superada por uma outra por ela mesma sugerida."

Eduardo Iglesias




ANOTAÇÕES DE PERCURSO

"A memória é apanágio e alegria dos homens. No espaço privilegiado da memória o vivido e o sabido alcançam dimensões revigoradas e, mesmo o que foi fracasso ou dor, pode inspirar ações e atitudes. É ainda nesse espaço do cruzamento sutil de objeto e subjetividade, que nos determinamos. Lembrando, fazemos aflorar os nexos que nos dizem quem somos, e apresentam alvos e possibilidades. Essa maneira de presentificar o passado por um saber carregado de sentimentos, valores e afetividades, é o solo onde o homem se enraíza e seu desejo aflora. Como bem sublinha Eclea Bosi, não há evocação sem uma inteligência do presente - mas uma ação memorial, um não esquecimento. Evocar é viver. Para viver, populações polinésicas, são capazes de recitar, sem titubeios, genealogias até dezenas de gerações. A memória, ainda prodigiosa, alcança enfim os seus limites e, para não esquecer, para não morrer inventamos então artifícios, astúcias anotações e as revisitamos.

Visadas por certo ângulo são obras de arte anotações. Anotações são obras de um duplo percurso, do artista e da sociedade em que ele se inscreve, onde se entrelaçam o mais individual e interno com o mais coletivo e exterior.

Ao comentário de Maltese sobre Leonardo: "Desenha tudo, torna tudo visível...", podemos acrescentar - faz mais do que tornar tudo visível, registra essa visibilidade, anota o visto.

Temos aqui "Anotações e Percurso" de Iglesias; de um lado caderno que enfeixa um conjunto de gravuras, de outro, reunião de peças únicas agora expostas. Comentário gráfico, pictórico, retrovisivo de outras anotações de percurso, sua própria obra anterior.

Estas anotações de anotações colocam um só tempo o ilhar e o objeto olhado. Tentativa consciente de totalização e resgate, oferecem a condensação de uma trajetória e sua transcendência.

Sabemos assim que o artista evoluiu numa seqüência linear, não apresenta saltos bruscos, repentinos abandonos de posturas ou buscas inesperadas.

Podemos situa-lo na estirpe de pintores como Mondrian ou Volpi, nos quais discernimos uma linha gradativa de transformação.

Apoiado sempre no azul com elemento unificador, o cromatismo de Iglesias não se altera de modo fundamental. É pois o azul em infindáveis nuances, ligado ao negro em grafismo, uma presença constante.

Lentamente vão os segmentos formais caminhando para desarranjos e reorganizações em estruturas cada vez menos rígidas até a representação da fragmentação tornar-se fragmentação real.

Os elementos constitutivos contudo, não desaparecem totalmente, ainda que muitas vezes, introduzidos sub-repticiamente.

O suporte trabalha quase até a exaustão (no caso das gravuras, inúmeras impressões das peças únicas, minuciosa fatura), e então dilacerado e os fragmentos reestruturados como colagens, superpostos a outro suporte com imagem constituída.

Dessa superposição nasce uma proposta de significação, enfatizada pelas marcas das rasgaduras, elas mesmas traços significativos decisivos.

Fragmentos e suas marcas, operam uma dualidade paradoxal: dissociados compõem ritmicamente o espaço que é assim unificado.

Evocando a si mesma, esta obra que se reconstrói, trabalha por seleções, sínteses e reestruturações.

Aparentadas, a ação da memória e da seleção construtiva, nem sempre privilegiam o que foi antes destaque. Investindo o selecionado de novas funções sintáticas e semânticas compõe um universo re-constituído."

NORI FIGUEIREDO





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