"Inquietude é a melhor palavra que se aplica à arte de Antonio Vitor. Suas imagens múltiplas, geradas por uma energia mental intensa, emergem desse espaço desconhecido chamado desejo. Elas contem cenas da realidade cotidiana e visões interiores, sem lugar ou tempo definido. Quando eclode na superfície branca das telas, a pintura de Antonio Vitor vem, no entanto, mediana pela disciplina de um olhar exigente, que fotografa, projeta, disseca o real até chegar à perseguida nitidez da idéia. Com mão firme, ele coordena a orquestração cênica de seu repertorio de personagens, que são em sua maioria os moradores comuns da periferia de Diadema, onde o artista vive, mas que entram porta adentro trazendo no seu rastro outros seres e paisagens da memória.
Cada elemento da sua pintura conquista espaço nesse universo complexo, como se acomodando em um loteamento imaginário. Nesse trabalho de ordenação, o artista ora abre brancos estratégicos para ali plantar uma figura, ora cria setores independentes para as varias ações - como numa historia em quadrinhos -, ora usa o recurso mais explicito da colagem. Outras vezes ele funde as figuras umas nas outras, ou contrapõe os personagens ao seu entorno ou ainda explode partes de sua anatomia - geralmente a cabeça - na paisagem do fundo, criando uma integração por metáfora. O que poderia parecer um caos emocional é disciplinado em composições seguras, onde a presença do desenho é fundamental.
As historias que ele tem para contar são atravessadas pelas referencias culturais de quem viveu intensamente os anos 60. Entre essas referencias, têm papel importante a leitura, as artes plásticas, o cinema, a musica, mas principalmente o melhor vício humano - o da convivência e troca de idéias. Movido por essa humanidade hoje meio fora de moda, ele fez amizades na favela e cultiva seu espírito jovem conversando, escrevendo, pintando, desenhando e agora aprendendo a tocar guitarra.
Antonio Vitor nasceu em São José do Rio Pardo a 27 de novembro de 1942 - mesmo dia, mês e anos que também nasceu James Marshall Hendrix, em Seattle. Antonio Vitor cresceu em Guaianazes, onde começou a trabalhar. Seu ateliê, entre 1971 e 1978 era freguentado por artistas como Charbel, Décio Soncini, Jair Glass e Francisco Gonzáles, que formaram com ele o grupo Guaianazes. Em 1980 ele veio para São Paulo, passando a morar no bairro paulistano do Brooklin, mas em seguida resolveu partir para Diadema, onde montou a casa e o ateliê onde vive e trabalha.
Não é apenas coincidência de aniversario que aproxima Antonio Vitor de Jimi Hendrix. A julgar pelos recortes de jornal pregados na parede de seu ateliê, ao lado dos tubos de tinta Talens Van Gogh, o músico é um dos seus três maiores ídolos. Os outros dois são Pablo Picasso, pela coragem de ousar sempre, e o escritor William Faulker: "Se eu conseguisse pintar como ele escreve..." - conjectura o artista, expressando admiração pelo escritor que, como ele, coloca "o Maximo de informação no mínimo de espaço". Humildade à parte, além de pintar, Antonio Vitor escreve, e com igual precisão e intensidade. Exemplo disso são as poucas linhas desta epigrafe, onde fala da essência de seu trabalho.
Ele é da geração do rock. O rock que é, mais do que um estilo musical, sinônimo de um tempo de rebeldias utópicas, símbolo de uma geração que não abdicava do direito de pensar a realidade o tempo todo era, por isso mesmo, revolucionaria. Jimi Hendrix, com sua guitarra incendiaria, freqüenta as pinturas de Antonio Vitor como uma aparição necessária, espécie de alter ego a dizer que a velha chama acesa. E a citação não é literal, nem tem sentido de preleção ou discurso para uso externo. A presença do guitarrista reafirma cada tela sua como um documento de identidade, é carimbo de uma paixão visceral, tão arraigada nele quanto o vício antigo de pensar. "Sim, há muita embriaguez", ele escreveu no poema "Breve visita ao ateliê de Giacometti".
Percorrendo a região à volta do seu "Mocó da Rocinha", ele mapeia o Morro do Macaco, o bairro de Monte Líbano ou o vizinho Guacurí. É a realidade dessa geografia restrita que o artista leva para as telas, atento aos detalhes: "Ando pela rua reparando nas coisas / Com a certeza da confirmação / De algo em mim e do que penso encontrar / - Aorta, cerebelo, retina em ação". Espécie de Harvey Keitel da nossa periferia, os olhos do pintor parecem enxergar algo mais, por trás da cortina de fumaça que sai do cigarro sempre aceso, como se nessa dimensão nebulosa tomassem forma as suas visões mais consistentes. Parece ter sido assim com a tela Antonio Nobre, e qual está estampado o selo "Correio do Guacuri".
Jimi Hendrix também perambula pelas redondezas em Saint Paul Blues - com sua guitarra que se esfuma numa paisagem de neblina, acinzentada, paulista e londrina ao mesmo tempo-, ou em Coração dourado - em que a guitarra canhota ocupa a roupa toda, e onde um menino corre, atravessando o peito do músico em direção ao coração do título. Ele ainda pode ser visto por cantos de outras telas, como em Loa, painel cinematográfico onde Hendrix acompanha o pintor na homenagem às pernas tortas de Garrincha, a Elis Regina, a Raul Seixas.
Nas paisagens que fazia "do natural", nos anos 80, Antonio Vitor parecia tomado por uma excitação gestual que produziu quadros de natureza expressionista, virulentos, alguns dominados por tons de cinza e terra cuja atmosfera trágica lembra os grandes painéis de Anselm Kieffer. Morros arrasados, cobertos de dejetos urbanos ou com lotes infinitamente numerados, anunciavam a favela de enormes proporções que acabou chegando ali, bem diante de sua casa.
Curiosamente, também os desenhos feitos diante de uma modelo, desde os anos 80 até alguns bem recentes, trazem os mesmos gestos movimentados. Ele desenha os corpos femininos com traços rápidos a nanquim ou carvão, a esses negros acrescenta porções de tinta, de uma ou mais cores, esfregadas como que para borrar os contornos anatômicos. As mulheres desses desenhos assumem às vezes posições impossíveis, ou tem os membros inacabados. O resultado é uma serie fantástica de trabalhos em papel, ao mesmo tempo eróticos e trágicos, que lembram um mestre do desenho, o austríaco Egon Schiele, e ainda o italiano Giacometti e o brasileiro Iberê Camargo. Eles são apresentados também aos desenhos de nus femininos de seu antigo professor de escultura na Escola de Belas Artes, Raphael Galvez.
Ao contrário dessas paisagens e desenhos produzidos diretamente em frente dos assuntos, onde a carga de realidade provoca a exasperação do gesto, na grande maioria de suas telas atuais ele se utiliza de um processo indireto, que lhe dá tempo de fazer a mediação - do olho que não apenas vê, mas que pensa - que lhe é tão necessária. Ele fotografa as cenas à sua volta e leva essas imagens para o ateliê, estourando progressivamente seus contornos reais, durante o processo de trabalho, até integra-las ao seu universo interior.
Sua ligação com a fotografia também aparece nos cortes e ângulos de algumas telas, como é o caso de Grávidas, de perspectiva aérea desconcertante, o sonho do Maverico, a filha do tratador ou ensaio Verbal - auto-retrato com os instrumentos de sua banda de rock. Em Que vocalista é esse? Ele apresenta uma mão saída de historia em quadrinhos, e nesse espírito ele também compõe a Saudação a Renato Russo.
Em Paixão roqueira, faixas de luz entram pelas frestas do barraco, iluminando a menina debruçada sobre a guitarra, enquanto galinhas andam pelo chão de terra batida, momento delicado que se opõe à dureza da cena de A Oferenda do Kanastra - o resto índio surge por atrás do muro marcado por buracos de tiro, no galpão uma televisão ligada, na rua restos de um corpo, por entre as arvores o limite da morte. De infantil e de flores, que lembra os compartimentos simbólicos e labirínticos de Torres Garcia, foi desenvolvido a partir de um desenho do filho, que ele conversa no ateliê ao Aldo dos retratos de seus ídolos. Um mundo de mundos, computador com promessa de mar, espécie de mapa de um universo de sonho e felicidade, onde há lugar para o cavalo, o palhaço, os peixes, a galinha, as flores, crianças, heróis ginastas - e a essa geografia infantil, a assinatura do pintor adere como um grafite solidário, uma tatuagem urbana a mais. Guitarra tatuada, por outro lado, mostra a moca diante de uma muro pichado, do qual ela aparece fazer parte como a guitarra tatuada na pele, que lembra a rosa tatuada no peito de Burt Lancarter, no celebre estreado também por Ana Magnani. Assim Antonio Vitor sobrepõe informações visuais e cria, ao mesmo tempo, a possibilidade de associações de idéias que se desdobram em muitos planos.
Num amontoado de restos, de lixo industrial, ele junta o erudito e o Kitsch do Rap para São Jorge, com um São Jorge meio robô, meio motociclista, um dragão feito de plástico e o cavalo que é o céu. A cidade deteriorada, abandonada, também é cenário para Brother savando o show, em que o tocador de violão navega pela enchente, levado até uma encruzilhada de impossíveis direções. A rua que vira água poderia ser o fim do caminho, não fosse o sorriso divertido da garota que tomou carona no mesmo barco. Na cidade, tudo passa tão rápido quanto o entregador de Pizza 2000. duas ações se sobrepõem na mesma pintura, aguçando contrastes. Na parte de cima, o casarão abandonado - de existência tão precária quanto a do barraco à sua frente - que se desenha contra os prédios novos. Na cena de baixo, a moto atravessa a rua em velocidade, assombrando o silencio, tornando o real surreal.
Em Os filhos grafitados, enquanto a mulher agachada lida com a roupa, as crianças em volta vagam por mundos próprios, em que pontuam o ursinho, o cachorro, a igreja, as cruzes de pequenas mortes banais, a flor no corpo, no fundo do copo o olho cristalino e sempre a escrita cifrada dos grafites. A composição espaçada reproduz os vazios desse mundo entrecortado, dominado pelo acaso e pela incerteza - incerteza que a pintura, aberta como uma crônica, tão bem representa. Nas telas de Antonio Vitor há freqüentemente um olho que observa mas não julga e uma criança que se dirige sem susto para fora desse mundo de perplexidade. É forte, nesse sentido, a imagem de Canção grafitada, em que uma mão ampara o menino, em meio a cortes cinematográficos e colagens de jornais com suas noticias explosivas. Esses olhares mantem cada quadro em aberto, permitem a comunicação de um com o outro e deste com o seguinte. O artista não fecha questão em cada trabalho, antes promove seu desdobramento.
A eficiência dessas imagens se mede também por seu poder de impacto e permanência. Saindo de seu ateliê, no caminho de volta para São Paulo, aos nossos olhos a periferia de Diadema já não parece à mesma. Contagiada por sua pintura, essa paisagem de casebres de blocos e tabuas, muros grafitados, ruas de terra que sobem e descem os morros, crianças soltas, cachorros abandonados, sinais de violência por toda parte, ganha novo sentido.
Expondo a ritualística dessa vida cotidiana, as telas de Antonio Vitor homenageiam a humanidade de cenas comuns e seus personagens. Diferentemente dos pintores do Santa Helena - que buscam nas beiradas da cidade, então confundidas com o campo, nos anos 30 e 40, aquilo que a cidade deixara de ser - o pintor da essa realidade marginal um tratamento contemporâneo, utilizando-se do instrumento da arte pop e de todo seu inquieto repertorio pessoal. A periferia de agora não é o avesso da cidade, mas o seu extremo. É "nesse campo de deterioração absoluta do real que seu trabalho", ele confirma. Antonio Vitor escolheu viver à margem para estar no centro dela, "dentro do lado de fora do dentro", percorrendo esse abismo com emoção e lucidez absoluta."