Regina e Arte Clube Ltda
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Alice Brill




Fragmentos Críticos

"São Paulo - mil cidades. Cidade única. Não precisa de tijolo, cimento, concreto. Cor e transparências. Só. As transparências ambíguas. As transparências-es-tetas que atravessam as paredes provocando-as a desafiar as leis da gravidade; leve. As transparências "filosóficas", interpenetrações do ser humano e do seu ambiente. Não há um existir isolado - "eu sou eu e a minha circunstância"
(Ortega y Gasset).

As "São Paulos" de Alice Brill são vaidosas. Elas mudam de roupa segundo as circunstâncias. Metrópole - outono, dourada, contente no seu despojamento quente. Cidade - inverno pura, branca, sombria. As vezes Alice convida: entre, é noite, azul. Está escuro. Então a pintora preocupada, hospitaleira, acende duas paredes com o amarelo dourado e deixa-las, refletores gigantes, para iluminar o caminho.

Há uma simbiose não só entre Alice e o tema, mas entre a pintora e o suporte da sua obra. Uma dobra tímida dentro do papel de arroz leva Alice a... dobrar um telhado, modelando-o pelo desenho e pela pintura. Um telhado-poltrona. Convidado, você se acomoda confortavelmente. Olhe, lá na frente, uma parede se iluminou, cinza, parede-tela-de-televisao. E, ao lado, uma fileira das janelas-botões. É só girar e a imagem vai mudar.

As telas, apesar das estruturas definidas, não são estáticas. Num canto Alice joga uma aresta do prédio que, como uma linha de pedreiro, desce no prumo. Atravessa o telhado e mergulha dentro da casa-poço. A pintora não fica presa às estruturas rígidas. Ela se deixa levar pelo vôo da liberdade e permite que um telhado intrometido se insinue através da janela, moldura vazia. Esta interpenetração dos elementos gera um dinamismo dentro da pintura. E quando Alice coloca o cavalete perto da janela ela provoca um dialogo mutante entre a tela e a cidade. As transparências provocam um vaivém constante. Você leva a impressão que é só virar a cabeça e a imagem vai mudar. A arvore, aquela guardada ciumentamente dentro da tela, já escapou e se plantou, sozinha na rua deserta. Os prédios se desprenderam devagar da realidade e estão penetrando dentro da tela. As construções na verdade tem sempre as tendências expansionistas. Um avanço constante, sistemático, as vezes caminham pelas estradas faixas cor-de-terra, diagonais, a invadir cada vez mais o espaço verde. Uma caminhada sem retorno. Então a pintora, às vezes escapa em busca da liberdade, na direção do mar. E aqui, dentro do espaço que respira, Alice aprisiona as águas. A espuma não se desfaz, fica amarrada em formas: siluetas brancas, braços e corpos entrelaçados.

Mas o vento leva de volta, para a cidade. Desta vez a rua se torna larga, um transito livre para entrar e sair da cidade. Esta se apequenou, tornou-se humana ao vestir-se com as arvores. Não mais as garras desnudas, mas árvores "borradas" aonde o vento cochila. Adormecido.

E a pintura serena, confiante adentra o seu ambiente: azul, dourado, amarelo-limão, terra-siena; cidade opressiva, cidade acolhedora. A paixão "aliciana"."

Stefania Brill




POÉTICA DO COTIDIANO

"Ainda que durante um período de 15 anos tenha se fixado na abstração geométrica e depois, nos últimos 10 anos, voltada para a composição figurativa, a pintura de Alice Brill sempre foi coerente. Coerente porque nas formas, linhas e cores os seus trabalhos mantiveram uma identidade que não antagoniza uma fase e outra, antes as reaproxima.

Olhando-se para a produção da artista de meados da década de 60 e o que ela vem realizando de 1980 para cá observamos como as mudanças, as transformações surgiram e se ampliaram aos poucos, motivadas pelas pesquisas contínuas. Porque as grandes e pequenas formações geométricas que a expositora construiu em muitas telas e sobre o papel desde então cederam lugar ao cotidiano de casas, fundamentalmente em relação a paredes, portas, janelas,jardins e terraços. Daí resultar, na presente mostra, que reúne duas dezenas de obras características das varias épocas em que forma concretizadas, uma minivisão do alcance que possibilita aos artistas de decidido metiê, como no caso de Alice, operar com bom domínio técnico/sensorial numa área e depois em outra com a mesma força homogeneidade. Ou seja, uma mudança de cunho espontâneo, não ao sabor de conveniências, impostas ou premeditadas.

A pintura destes últimos anos de Alice Brill pode ser entendida ou vista como um relato da poética do cotidiano, uma pausa à agitação e descontrole emocional que envolve os habitantes das grandes metrópoles como São Paulo.

E se eventualmente ela retornar a qualquer momento ao abstracionismo geométrico, como alguns trabalhos recentes sugerem, fica a certeza de que saberá dar o recado com a mesma intensidade que divisamos ao longo de quase toda a sua produção. Não lhe faltam, para tanto, sensibilidade acurada e conhecimento do caminho a percorrer."

Ivo Zanini / São Paulo, 04/09/90







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