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Márcia Lorenzato
VIAGENS EM SI

Galeria Candido Portinari
Embaixada do Brasil em Roma
10, Piazza Navona
17 de dezembro 2003 a 3 de janeiro 2004


Os sonhos acordados de Márcia Lorenzato

Através da sua própria biografia, Márcia Lorenzato expressou aquilo que, mais tarde, seria a substância da sua obra, ou seja, o distanciamento, a locomoção como renascimento para si, a abertura para novos territórios, novos encontros, novas sensações. Nascida em São Paulo, em uma família de raízes ítalo-portuguesas, a artista morou em diversas cidades do Brasil e Canadá. É em Bruxelas que colocou provisoriamente sua bagagem, antes, sem dúvidas, de continuar seu caminho rumo a novos horizontes. Será que se deve, a partir daí, enxergar na forma das camas, às quais suas obras instalativas se referem, um paradoxo ou o contrario a expressão coerente de sua relação com mudanças sucessivas? Cabe ao expectador fazer tal escolha e, principalmente, projetar suas próprias impressões sobre esta estrutura familiar que é ao mesmo tempo surpreendente, pois a artista não elabora seu trabalho como uma obra autobiográfica. Seu trajeto constitui apenas um ponto de partida que desencadeia questões de ordem universal.

A estrutura da cama, que enquadra impressões fotográficas sobre tecido, funciona também como ponto de partida. Totalmente fabricadas por Márcia Lorenzato, estas camas são de formatos diversos. Aos pés das camas, todos diferentes uns dos outros, recuperados de antiquários, a artista lhes atribui assim uma nova existência. Não se trata, aqui, de modo algum, de um ready-made, mas sim de uma reconstrução de um objeto familiar, íntimo, que a artista transpõe na vertical, fixando a obra na parede de espaço público de exposição. Este quadro acolhe uma tela que reproduz imagens fotográficas, retrabalhadas pela infografia. Desestabilizada, ao ser instalada nas paredes, a cama não é então apenas assimilada no espaço do repouso, do sono, mas a um local onde se inserem imagens como num sonho.

As imagens de Márcia Lorenzato têm, de fato, a complexidade e a densidade dos sonhos. Através de suas obras, a massa gravitacional é freqüentemente invertida, como na obra Iniciação, em que os galhos das árvores transformam-se em raízes, e as raízes em galhos. Estas inversões acabam duplicando este efeito através do plano da cama, que passa do horizontal para o vertical das paredes. Suas obras dão também a impressão de vertigem, pois os elementos, como as pedras de Acidentado, perdem sua estabilidade em favor de um movimento de queda, de deslize.

Driblando a verossimilhança da imagem fotográfica, Márcia Lorenzato consegue criar mundos oníricos congregando, em uma única tela, fotografias de diversos registros. Ao resgatar imagens de seus parentes, a artista apropria-se de cenas ou rostos que são, então, afetivamente próximos, embora distantes no tempo. A criança está presente na maioria de suas obras. No conjunto da tela, estes clichês surgem geralmente em um tipo de projeção, circunscrita ao espaço e ao volume do travesseiro, ou seja, no espaço do sonho. Estas imagens inserem-se num fundo através do qual pode ser visto um amplo espaço, correspondendo na maioria das vezes a uma fotografia de paisagem, às vezes, invertida. A inocência da idade e das brincadeiras infantis dialoga com um espaço que parece imutável, perene.

Através da instalação ou da colagem de imagens fotográficas retrabalhadas eletronicamente, Márcia Lorenzato produz representações complexas. A partir de preocupações recorrentes, ou seja, da passagem do tempo, da transmissão intergeracional, do relacionamento do indivíduo com seu meio, a artista cria a cada vez variações renovadas que buscam incitar o imaginário do espectador.

As diferentes camadas da imagem convidam, de fato, a um outro nível de leitura diversa, ultrapassando de longe a dimensão biográfica ou feminina de sua obra. O universo da célula da família ou da casa, denotado pela referência à infância e à cama, não é concebido de maneira caricatural como algo especificamente feminino. Tais elementos não conduzem a uma interpretação restrita de sua obra, que seria a de uma obra feminista. Ao não se restringir a categorias estabelecidas, as instalações de Márcia Lorenzato convidam o espectador a viver uma experiência de um tipo de sonho acordado, através da qual a consciência de sua condição humana se enriquece pelo imaginário capaz de recriar, de maneira incansável, outras existências possíveis, outros relacionamentos com o mundo.

Danielle Leenaerts, PhD
Université Libre de Bruxelles, Historia da Arte

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Citações de textos de críticos de arte e jornalistas:

"No fil do mistério cotidiano

Marcia Lorenzato explora a memória e suas terras interiores através de grandes formatos de obras fotográficas onde o íntimo encontra o mistério da vida quotidiana, onde a morte, o questionamento sobre a morte evoca a passagem, a transferência, o próximo e o inquietante. Onde se situa a pessoa humana, entre as mil e uma rotas a serem percorridas, as escolhas, os sonhos a serem realizados... a ambivalência e a rescisão, a doação e a aceitação, a revolta, a abertura e o segredo, o íntimo de todo ser que debica, pouco a pouco, este fio de onde surge sua vida. De onde vem aquilo que nasce. Nascimento. Grito. Palavra. Silêncio. Todas essas facetas nos são simbolicamente entregues, às vezes inocentemente, como um regresso às fontes da infância, às vezes ferozmente, mesmo com ares de anjo, de doçura, de solidão, de pétalas de flores. E estes milhares de rostos que habitam nossas memórias. Memórias de um povo, de alianças e de recusas, de novas vias, de rostos a procriar. Marcia Lorenzato cria uma obra original que ecoa em nós, que nos interpela.

Uma obra de mistério, um grito, a aurora de um diálogo... Como uma transumância...

Ao descobrir este mundo singular, você poderá ser conquistado!"

Pascale Eyben, historiadora de Arte,
Bruxelas, Novembro de 2003


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"Marcia Lorenzato propõe através de sua obra mergulharmos no processo de ampliação da nossa sensibilidade, como observadores atentos, através de uma expressão que se renova. Quem observa sua obra, realiza um procedimento solitário, viajando no imaginário possível, indo além do quadro exposto em simbólicas camas que, como portais, convidam-nos para ir além das interpretações conscientes e chegarmos ao inconsciente reflexivo."

Paulo Pegoraro, jornalista,
Brasil, Outubro de 2003


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"As faces cruzadas da obra de Marcia Lorenzato

Estar diante do trabalho de Marcia Lorenzato é entrar, obra por obra, no imaginário íntimo da artista e viver o efeito inesperado do gesto criado em equilíbrio sobre um fio. O que poderia ser mais bem representativo deste equilíbrio do que um eixo vermelho vertical onde pivotam imagens? E o que poderia ser mais íntimo que camas onde repousam fotos pessoais do passado? Os lençóis das camas são telas semitransparentes em que o véu se cobre e se descobre, sob o jogo de luzes sabiamente instaladas atrás da imagem, impressões maculadas de lá e daqui de um escotoma. O traço oblíquo da obra "Jogo Duplo" parece, por exemplo, querer pesar a leveza inocente própria da juventude contra o peso do olhar direto e perfeitamente lúcido da obra “De Dentro” da senhora idosa que o acompanha. Balançar, pesar, subpesar a fim de melhor medir. Será que na obra da Márcia é chegada a hora do balanço?"

Marc Audette, Ryerson University,
Toronto, Setembro de 2002


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E-mail: Marcia Lorenzato








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