VISUALIDADES / TÉCNICAS
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EXPOSIÇÃO
Exposição coletiva dos artistas Danilo Di Prete, Luiz Sacilotto, Marcello Nitsche, Gilberto Salvador e Waldemar Cordeiro, no Instituto Cervantes. O projeto foi aprovado pelo MINC para os benefícios da Lei Rouanet (Lei Federal nº 8.313 /91) com o patrocínio da Engevix, São Paulo, SP.
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VISUALIDADES / TÉCNICAS
As transformações históricas, econômicas, sociais e tecnológicas posteriores às duas grandes guerras do século XX modificaram profundamente as condições de percepção e de perspectivação do fazer artístico.
Na contemporaneidade algumas manifestações estéticas exercem decisivas influências que permitem ao cidadão comum descobrir humanidade na incerteza do uso da ciência e da tecnologia avançada, em especial frente à globalização massiva que questiona, cada vez mais, a necessidade ou não da sobrevivência da criação artística independente ou consectária à economia globalizada vigente internacionalmente.
Assim, metaforicamente, a arte realizada hoje no Brasil permite uma forma de distanciamento às imposições estéticas estabelecidas, redimensiona os ideais cristalizados de individualidade, inventividade, racionalidade e autonomia, ruptura direta com a tradição modernista brasileira, que nascera nacionalista. Entretanto, Mário de Andrade já propunha “a afirmação de uma consciência técnica, possibilitada pela submissão do gesto criativo e do pré-conceito ao material próprio a cada ofício, inclusive o do artista”.
As vanguardas construtivas das primeiras décadas do século passado preconizavam uma linguagem geométrica universal, sem laivos de nacionalismos e ou xenofobismos estéticos, uma linguagem ética isenta de imposições panfletárias e ou idealizantes que apenas situavam ou transformavam as realizações artísticas em acontecimentos cronológicos datados e, muitas vezes, descartáveis da historiografia da arte.
Ao explorar a geometria, os avanços científicos e tecnológicos, os artistas destacam as relações multidimensionais, óticas da forma, da cor e do espaço. O uso de novos materiais e novas tecnologias apenas funciona como um elemento a mais para a composição artística, pois as pirotecnias técnicas jamais substituem o talento.
É impossível, na atualidade, dispensar as pesquisas e as experimentações tecno-científicas, assim idealizações tecnológicas permitem aos cientistas e aos artistas atualizados ver e sentir com antecedência o que o espectador só perceberá posteriormente.
De maneira geral, as criações artísticas tecnológicas dependem para existir de alguém que as toque, as ligue e ou as conecte eletricamente. Isentas de estratificações plásticas históricas, academizantes subvertem todo e qualquer tipo de conceito estético ultrapassado. Uma forma de resistência ao estabelecido a procura de novas possibilidades de relacionamento da arte com o publico, em oposição a contemplação passiva do usufruidor com o produto artístico. Desta maneira produzem fricções estéticas que ampliam as formas de convivência inter-gerações, fator diferencial para questionar a emergência de se idealizar novos repertórios de visão e significação plástica. Helio Oiticica criticava o fato da arte se preocupar apenas com a função estética, no sentido de se pensar as obras apenas como belas. Para este artista era fundamental transformar o espectador, por intermédio daquilo que ele denominava de “desestetização da arte”.
O artista contemporâneo deve ultrapassar a mera função técnica e facilitar ao usufruidor uma visualização estética de obras mescladas de atração e ou repulsa frente aos avanços tecnológicos, que em alguns momentos da história da evolução científica nos coloca apenas como coadjuvantes em oposição a tecnologia e a ciência que se transformam em protagonistas principais. É reservado aos novos criadores conectar, confrontar a articulação interna do momento histórico atual, que nos insere em um espaço-tempo singular de avanços técnicos, científicos e artísticos que não param de acontecer e de mudar o modus vivendi de nossa época.
No final do século XX, muitos artistas utilizam novas técnicas e materiais recém lançados pela industria que os induzem a questionar o simples uso de movimentos obtidos por aparelhos elétrico-eletrônicos. Mais uma vez, descortinam que a lentidão e a ausência de movimentos mecânicos tem valor, beleza e força expressiva na contemporaneidade, entendem que a desaceleração pode ser fundamental para o ato criador. Reconhecem que a velocidade e a rapidez são importantes, mas a lentidão também. Admitem, outrossim, que paralelamente à velocidade há espaços para o silêncio e a tranqüilidade nas representações visuais deste mundo hiper-rápido, estimulante, sonoro e contraditório. Para Carl Honoré “é o começo de uma mudança cultural, uma mudança no modo como entendemos o tempo, a velocidade, a quietude e a lentidão”.
A exposição VISUALIDADES / TÉCNICAS apresenta a produção de artistas pioneiros consagrados: Waldemar Cordeiro, Danilo Di Prete, Luiz Sacilotto, e de seus seguidores, Marcello Nitsche e Gilberto Salvador que incorporam materiais e técnicas contemporâneas em suas obras, que pensam com intensidades próximas o uso da velocidade e da quietude estética, procuram assim despertar no expectador uma emoção consciente, sem subterfúgios e ou sentimentalismos para criar novas percepções e diferenciadas dimensões criadoras - mais poéticas do que lúdicas. Visualidades-desafios que sensibilizam o usufruidor à uma emoção consciente, sem apelos dramáticos ou sentimentalismos.
Assim reforçam mais uma vez que a triologia, arte-ciência-tecnologia não pode ser separada, pensada isoladamente, pois intrinsecamente se complementa e se interage em múltiplos aspectos. Com a publicação em 1919 da Teoria Relatividade Geral, de Albert Einstein, além da ciência, a arte também idealiza hipóteses da inexistência do repouso absoluto do universo. Assim, o artista e o usufruidor, ativamente, subvertem visualmente a perspectiva renascentista, para captar relações, escalas e distâncias entre objetos e corpos em movimento da realidade incomensurável do espaço para dentro dos limites físicos de uma obra de arte. Passam a descobrir o espaço-tempo em movimento a partir de uma observação mais ampla, simultânea a vários pontos de visão, em oposição a um único ponto de vista da perspectiva renascentica. Desta forma a arte é ao mesmo tempo física e metafísica, objetiva e vivencial. Hoje, o atelier do artista plástico transfigura-se de oficina para laboratório de uso e pesquisa de novos materiais e técnicas. Um singular espaço para idealizações, visualidades.
João J. Spinelli
Historiador e Crítico de Arte
2005

"Paisagem Cósmica" 1962 - 1,00 x 1,00m Madeira pintada, Aluminio, vidro e lâmpada

"Dentro da Lua nº 4" - 0,54 x 0,54 x 0,15m
Madeira pintada, Aluminio, vidro e lâmpada
Danilo Di Prete
"Di Prete tem uma rica e sutil imaginação plástica e o que realiza aparece sempre de maneira perfeita. Esta arte é verdadeiramente sua, pois possui sua própria unidade e fisionomia. Ela é testemunha de um gosto requintado e extremamente seguro, isto é, daquilo que se deve chamar de um auto-domínio,. Tudo isto é inteligente, comedido, delicado e, para empregar a palavra de que muito gosto e aqui se impõe, poético".
Jean Casson

"Cadeado III" - 1,10 x 1,60 x 0,22m
Madeira policromada ( Gofratto )

"CadeadoII" - 1,13 x 1,60 x 0,17m
Madeira policromada ( Gofratto )

"Semente I" - 1,08 x 1,60 x 0,35m
Madeira policromada ( Gofratto )
Gilberto Salvador
"Nas ultimas quatro décadas a produção plástica de Gilberto Salvador registra momentos significativos da arte e da vida brasileira: a contundência documental dos anos de chumbo da ditadura nos anos sessenta; a preocupação com a crescente degradação da paisagem e do meio ambiente; o uso de materiais e técnicas avançadas, de alta tecnologia, idealizadas pelo autor a partir de 1969 para a décima Bienal Internacional de São Paulo. Todas essas fases confirmam a capacidade criadora de um artista sublevado, arrojada, que enfrenta os desafios da arte contemporânea sem se repetir ou se acomodar, maneiristicamente, com uma única fórmula ou modelo de criação artística. Nos dias atuais, novos materiais e novas técnicas incitam, mais uma vez, o artista à procura de novas formas de fazer a pensar arte".
João J. Spinelli - 2004

"Sem Título" - 1,40 x 0,45m
PVC + Pintura Automotiva

"Sem Título 2" - 2,00 x 1,00m
PVC + Pintura Automotiva

"Sem Título 3" - 0,83 x 0,95m
PVC + Pintura Automotiva
Marcello Nitsche
"A beleza nas obras de Marcello Nitsche está nas razões que animam a técnica com que são feitas. (...) Ciência e técnica desenhadas em linguagens inventadas sob a forma artística. Marcello é o mestre da liberdade. Aquele que escreve com ar. (...) Não são imprevistos, são previsões dizendo: quando eu trabalho durante todo o tempo vai surgindo uma novidade trabalhada. O que se passa lá no interior dos espaços entre as moléculas, as suspensões, as forças de um universo inteiro de fenômenos, descritos.
Contemplando estes rabiscos podemos ser possuídos por um prazer inesperado, uma visão erótica da vida e do trabalho. Dimensão humana da natureza tornada virtuosa... Marcello Nitsche é um maestro da liberdade."
Paulo A. Mendes da Rocha - 1994

"C 0001" - 1,10 x 1,10m
Tempera acrilica sobre tela

"C 9984" - 1,10 x 1,10m
Tempera acrilica sobre tela

"Sem Título" - 0,48 x 0,48m
Guache sobre papel 195

"Sem Título 2" - 0,48 x 0,48m
Aquarela sobre papel 188
Sacilotto
Para Luiz Sacilotto o objetivo da arte - não era ser mera imitação da natureza e muito menos ser fruto de arbítrio, mas percepção e criação”. Nas suas idealizações visuais a mesma forma e a mesma cor possibilitam inúmeras leituras. O autor, com maestria, entende que a criação artística é melhor percebida em razão da diferença de cor, textura ou luminosidade das formas que as definem, pois, quando inseridas em relações cromáticas ou espaciais diferenciadas, permitem visualidades modificantes: simultaneidades que evidenciam novas relações colorísticas ou tridimensionais e marcam, definitivamente, sua contribuição para as artes visuais do Brasil da segunda metade do século XX.
João J. Spinelli - 2005

"Retrato de Fabiana" - 0,66 x 0,44m
Computação Grafica Print sobre Papel

"Retrato de Fabiana" ( variante ) - 0,66 x 0,48m
Computação Grafica Print sobre Papel

"Transformação em grau zero" - 0,43 x 0,41m
Computação Grafica Print sobre Papel

"Transformação em grau 1" - 0,33 x 0,48m
Computação Grafica Print sobre Papel

"Transformação em grau 2" - 0,39 x 40m
Computação Grafica Print sobre Papel

"Transformação em grau 3" - 0,39 x 40m
Computação Grafica Print sobre Papel
Waldemar Cordeiro
"Seria o artista um esboço imperfeito de uma máquina de criar à qual recorremos pela falta de melhor? E que papel representará ele num universo do artifício total?
A obra de Waldemar Cordeiro prefigura a evolução das imagens artificiais ou naturais, criando todas as etapas intermediárias, esquemas fabricados automaticamente com base numa fotografia ou reciprocamente. É assim que por um processo de manipulação dos pontos de uma imagem, Cordeiro os quantifica por meia-tintas, depois os submete à derivação de sua granulação em função de sua posição que faz emergir os contornos, e ainda duas outras derivações. A imagem torna-se então apta a todas as manipulações permitidas pelo sinal eletrônico. Ele situa-se destarte no campo dos possíveis, mostrando que se pode ir longe na arte de fascinar. Pois se tais imagens me seduzem, sei que, por trás de cada uma delas existem variações que basta pesquisar.
As imagens aqui expostas não são fechadas em si mesmas; elas exemplificam uma arte toda de artifício que segue rumos bem diferentes do imaginário artístico tradicional. O caminho do arbitrário nela passa através da ordem e não há ponto, mancha ou cor que não tenha sido levado em conta, conscientizado pelo ordenador de formas: não é mais o resultado de uma continuidade espontânea do movimento de sua mão, porém de uma vontade de forma; faz-se necessária uma aptidão de ir além. O artista deve ir além e definir sua atividade pela idéia do exemplo antes que pela da obra."
Textos de Abraham A. Moles:
- L´ART ET LE ORDINATEUR, Casterman, Paris 1971
- Conferência proferida na Universidade de Montreal, Canadá - selecionados pelo autor numa homenagem pessoal à obra de Waldemar Cordeiro, Setembro de 1973.
PATROCINADOR : Engevix
APOIO CULTURAL: Instituto Cervantes e Dan Galeria
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