fragmentos críticos


texto: Vários

NAS TRILHAS DA USP

As obras recentes de Cláudio Tozzi contêm muito das reminiscências de fases anteriores pelas quais percorreu sua poética visual. Tozzi é, nas palavras de Frederico Moraes, um “construtor de imagens” e, nesse sentido, sua produção somou transformações, sínteses de conquistas passadas e memórias de suas vivências. Por vezes, sua trajetória artística perpassou momentos expressivos do percurso histórico do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC- USP).

É impossível dissociar o artista Claudio Tozzi de sua carreira na Universidade de São Paulo, como docente-pesquisador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP). Na década de 1960, a denominada FAU Maranhão marcou as origens de seu processo criativo. Deve-se lembrar que o prédio da FAU, na Vila Penteado, um casarão de estilo art nouveau, era o lugar dos cursos de arquitetura e ali bem próximo estavam as faculdades de Economia, Filosofia, Ciências e Letras da USP, constituindo um espaço politizado, pleno de debates e de criatividade.

Essa ambientação teceu as propostas do artista que despontou como ganhador do concurso de cartazes do XI Salão Paulista de Arte Moderna (1963). Nessa época, as diretrizes dos Centros Populares de Cultura (CPCs), exerceram enorme influência no trabalho de vários artistas jovens de vanguarda como Tozzi. Sobre o contexto de sua emergência, Tozzi afirmava em 1977: “Uma das características da arte brasileira de vanguarda dos anos sessenta é a preocupação com o coletivo”. Inserida nessa questão socio-política, a linguagem do artista utilizou os meios de comunicação, abarcando desde sinais de trânsito, letreiros, outdoors, histórias em quadrinhos até processos fotomecânicos de reprodução.

O artista associou-se ao MAC-USP, especialmente em interferências ocorridas nas mostras Jovem Arte Contemporânea (JAC). A partir de 1963, o MAC USP adotou uma inovadora postura frente à produção de novos artistas, através de uma programação anual de mostras que atribuíam “prêmios de aquisição”, como as exposições: Jovem Desenho Nacional e Jovem Gravura Nacional. No ano de 1967, essas duas mostras foram reunidas e transformadas na JAC, que priorizava o incentivo aos novos artistas nacionais de vanguarda.

Com as várias edições da JAC, Walter Zanini, diretor do MAC-USP de 1963 a 1978, aspirava por uma idéia de museu ativo que contemplasse as funções tradicionais museológicas, como a ampliação da coleção e a conservação de obras já consagradas e, simultaneamente, pudesse ser lugar de novas pesquisas e novos artistas - era uma nova atitude frente ao artista e ao público. Claudio Tozzi participou nas edições da JAC em 1967, 1968 e 1970, com destaque especial entre as jovens promessas que surgiram nesse momento.”

Nas suas criações iniciais, houve o reflexo direto dos aspectos político-sociais da época, aliando sua poética à de outros artistas, cujas obras encontram-se também no MAC-USP, e que, juntas, responderam aos anos ácidos da ditadura com expressividade polêmica e combativa. Esses mesmos anos também marcaram o início da constituição do acervo do MAC-USP. Um dos pontos significativos dessa produção de Tozzi é o painel Guevara vivo ou morto (1967), exposto no Salão Nacional de Arte Contemporânea e destruído a machadadas, posteriormente restaurado pelo artista.

Ainda nesse período, Tozzi arrancou imagens de cabeçalhos dos jornais e as exprimiu por efeitos dos quadrinhos e outros recursos da pop art. No momento seguinte, em contato com o real, tornou-se mais crítico e menos imediato, surgindo então as pesquisas óticas e séries como a dos parafusos, gravuras e móbiles, nas quais o artista agregou desenho e pintura aos objetos da era tecnológica. É importante ressaltar que a programação do MAC USP encontrou-se na mesma direção, nesse período, abrindo caminho para novas linguagens, entre elas a produção de Arte Conceitual e a de Arte Tecnológica”.

Na Coleção MAC-USP, Tozzi apareceu envolvido com a arte contemporânea em obras que retomaram a figuração e com diversas propostas realizadas pelo museu universitário. Essas buscas puderam ser detectadas, por exemplo, nas sinalizações de ícones, em temáticas por vezes mais políticas ou na ênfase mais construtiva das formas ou, ainda, no desenvolvimento de pesquisas estéticas dentro do acervo.

Durante as décadas de 1970 e 1980, o acervo do MAC-USP recebeu uma grande quantidade de gravuras, em diversas técnicas; entre as aquisições, 21 serigrafias do álbum A obra de arte e sua multiplicação: estudo do processo de reprodução por serigrafia, que compôs a dissertação de mestrado de Tozzi, apresentada à FAU, em 1980.

Em maio de 2002, Claudio Tozzi participou de um novo projeto no MAC-USP, a série Encontro com Artistas. Juntamente com outros artistas de renome, tais como Ivald Granato, Maria Bonomi, Antonio Henrique Amaral, Carlos Vergara e Amílcar de Castro, Tozzi abriu um canal de diálogo com os pesquisadores e docentes do MAC-USP sobre as necessidades emergentes para um museu de arte contemporânea.

Dessas discussões nasceu o projeto de exposição Nave dos insensatos, reunindo a pesquisa curatorial com a pesquisa da trajetória artística individual e a coletiva. O acervo do MAC-USP foi ponto de referência para compor essa mostra, pois cada um dos artistas possui obras no museu que, somadas às obras de suas coleções particulares, selecionadas pelos curadores, no ateliê de cada participante, cobrirão lacunas do acervo. A temática do projeto de exposição, em andamento, está associada à tela Nave dos insensatos de Hieronymus Bosch (1450-1526), expressando a idéia de que as contradições do mundo provocam dúvidas e equívocos. Nesse contexto, todos são navegantes em busca de um lugar seguro.”

Em síntese, o processo criativo de Claudio Tozzi é composto por fases que, muito embora pareçam ser bem distintas umas das outras, vêm de caminhos que partiram do desenvolvimento da própria produção e do contexto vivido - o MAC USP vem fazendo parte do universo de experiências desse artista. A emergência de talentos como Tozzi, em mostras promovidas pelo Museu de Arte Contemporânea da USP, expressam a preocupação da instituição em ser “celeiro” de novas possibilidades e linguagens artísticas. Ao longo de seus quarenta anos, iniciados em 1963, o MAC-USP pode se orgulhar de sua trajetória e dos artistas, como Claudio Tozzi, que compõem seu acervo de excelência.

Elza Ajzenberg