fragmentos críticos


texto: Nelson Aguilar

Não iremos refazer a trajetória do artista, apenas acrescentar que a execução dos pontinhos passou por varias etapas, inclusive a do rolo que permitia sua multiplicação em áreas cuidadosamente isoladas, partes extras partes, por máscaras. O controle de Tozzi sobre a obra chegou à etapa final, tudo corria conforme projetado pelo grande Inquisidor. Essa fase inflativa fez dele uma espécie de Kasparov que joga sobre dezenas de tabuleiros seu xadrez sem perder uma única partida sequer.

O estado de infalibilidade abriu brechas, como acontece a todo Éden. Em relação a ele, nasce esta exposição anunciando a chegada do dionisíaco sob aspecto da retícula gestual. O rolo retornou ao seu prego, a confissão da procedência confere sensualidade à obra, Tozzi, como a ouroboros, conseguiu morder a própria cauda, unir começo e fim num circulo atual, irradiante de possibilidades. Se uma de suas primeiras obras apresentasse colagens à maneira de Kurt Schwitters, a engrenagem e a imagem do papa entre outras, tudo ligado por uma pintura desgastada, raspada, áspera, ilhas de significados emergiam do mar das formas, agora voltamos à plenitude do Egeu, o oceano avança impune entre silhuetas que não se refere nem ao mecanismo, nem ao sumo pontífice, mas a outras encarnações formais.

Quais são as figuras que conduzem essa frase? Lembremos ao neófito em Tozzi que as anteriores eram freqüentadas por astronautas, parafusos, escadas, para citar alguns exemplos de imagens que seu fazer acolheu. A resposta é expeditiva: não há figuras mais, apenas formas. A tal ponto a distinção entre a forma e a imagem (ou figura) anda negligenciada, que passamos parte dos debates que sucederam a uma conferencia sobre o pós-moderno em história da arte tentando iluminar o abismo entre ambas, sem o qual um Parmigianino poderia ser assimilado a um Bouguereau.

Há um desencadeamento de formas em alguns quadros se, o salvo-conduto dos temas, um balé de elementos eminentemente gráficos, espirais, poliedros, cujas direções são contraditas, qualquer pista que dê à profundidade, à perspectiva é desmentida por uma outra que desemboca ao lado do espectador. As cores usam seus poderes abdutivos e adutivos, o vermelho insiste através de formas superpostas. Esses quadros em relação ao espaço sideral referem-se mais à terra e o batedor dessa vertente seria Léger.

Nos quadros onde saem surdas, frias, as retículas chovem em pinceladas escuras, alcatroadas, a proposta de levitação dos quadros anteriores desaparece em prol de uma armação espacial nova, onde a densidade das cores aliada à compacidade das formas erige uma espécie de brasão. Os emblemas alinham-se uns aos outros e a sugestão heráldica predomina. As interpenetrações de linhas rememoram as tentativas cubistas de Gleizes, o pintor do grupo religioso da Abadia. Para além da analogia, percebemos que a forma impõe um perfume espiritual, um ardor de religiosidade.

Nelson Aguilar