fragmentos críticos


texto: Frederico Morais

Escrevendo sobre a última fase de Cláudio Tozzi, no inicio do ano passado, afirmei que um dos equívocos da crítica brasileira é o de julga-lo unicamente por seus temas, quando, a rigor, mesmo em seus momentos considerados mais políticos e participantes, ele é um artista abstrato, ou melhor, ele é um construtor de imagens. Acrescentava que Tozzi não usa a imagem como mediadora, em seu aspecto referencial, mas a sua imagicidade. Trabalha com aquilo que constitui o subsolo da imagem - retícula, grão. Trata a imagem como um designer: isola, agiganta, congela, junta, repete, fragmenta, divide, soma, multiplica.

Em sua fase atual, Tozzi absorve e recria todo o universo da arte construtiva. Nos trabalhos aqui expostos existem referencias ao Cubismo, ao Futurismo (Boccioni, Russolo, Soffici, Balla, Severini), aos construtivistas russos e eslavos como Malevitch, El Lissitsky, Laszio Péri, Puni, etc. das escadas sobraram apenas as linhas que delimitam os degraus e que aparecem, malevitchianamente, atraídos para dentro e para fora do quadro. Em sua fuga, essas linhas liberam o espaço para novos arranjos.

Cláudio Tozzi, como Volpi, desconstruiu a fachada arquitetônica, escolhendo alguns detalhes signos para, com eles, reconstruir não mais o edifício figurativo, que desabou, mas a própria arquitetura imagística. Tendo alcançado a dureza do cristal mondrianesco (aquela barreira de edifícios, em primeiríssimo plano, sangrando as bordas da tela, como se fosse a cidade, ela mesma) deixa-o cair e se espatifar. Como as estilhas que espirram por todos os cantos da tela, chuva de meteoritos, tozzi arma o novo caleidoscópio de sua pintura.

E nesse aprofundamento do filão construtivo, Tozzi, quem sabe, reencontra-se com suas raízes italianas e, como seus conterrâneos futuristas, rechassa o ângulo reto, monótono e apaixonado, multiplica as diagonais, os planos em obliqua, os arabescos dinâmicos, criando imagens polifônicas e polirítmicas. Cria aquilo que os futuristas definiram como um "complexo plástico", vários espaços a um só tempo, vários tempos num só espaço. Não quer captar mais um instante fixo da paisagem urbana, seus edifícios, mais sugerir o dinamismo que a envolve por dentro, criar um símile para a trepidante e frenética atividade da grande cidade, na qual está imerso. Daí o estilhaçar de formas que pouco a pouco vão se encontrando em uma nova organização visual, vibrante e envolvente. Um jardim de formas.

Estou convencido de que, passado à avalanche neo-expressionista, que serviu para arrancar a pintura de seu marasmo e de seu enfadonho intelectualismo, estamos entrando, de novo, em período construtivo.

Um construtivismo reciclado pela emoção, com uma componente lírica, corpórea. Estes trabalhos de Tozzi antecipam ou são o prenuncio desse novo período.

Frederico Morais