fragmentos críticos


texto: Olívio Tavares de Araújo

Dentro de uma dialética entre figura e abstração, a atual fase é justamente uma síntese, uma tentativa se superposição das duas vertentes sem que elas briguem entre si. Os quadros atuais derivam das escadarias e recortes que Tozzi apresentou há um ano e pouco, e conservam, das escadas, os ângulos, zig-zags, as sugestões de diferentes planos que se sucedem na perspectiva da tela. Mas tudo está diluído, quase caracterizado, por uma cerrada trama pictórica.

A pintura é, pois, figurativa em sua gênese, e pode ser entendida assim. Mas o resultados puramente visual tende a ser lido de maneira abstrata; o que realmente interessa a Tozzi, nesta altura, é um festivo cromatismo em composições intensas e dinâmicas, que às vezes lembram efeitos da optical art. Como nesta, a presente pintura de Tozzi está empenhada em estimular, gratificar e brincar com a percepção do espectador. Em que quase a severidade construtiva que está por trás de tudo (e não temos por que fugir à temível palavra: trata-se de uma arte essencialmente geométrica), há jogo e prazer em tudo isso. Tozzi esta sem dúvida alegre em sua presente produção. E essa alegria roça, muito de leve, e pela primeira vez em toda obra, até por uma certa tendência ao amoroso e sensual.

O que nos interessa mais é ver e situar a produção de Cláudio Tozzi, em 1986, dentro de uma linha de trabalho que é respeitável e sólida dentro da arte brasileira. Pondo de parte as especificações no momento, o que aqui reencontramos é um artista que constrói com a cabeça seu projeto, e se fila deliberadamente à família dos criadores que pretendem alcançar valores plásticos permanentes e estáveis. Tozzi - que, neste instante da obra, está atemático (as escadas são só abstratos) - sabe que a arte sobrevive estética e historicamente não pelo que conta, por seu assunto, mas sim pela maneira e competência com que a forma se concretiza e é tratada.

Olívio Tavares de Araújo