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ATRAVESSANDO AS ÁGUAS
2003
CLÁUDIA SIMÕES E SUAS CELEBRAÇÕES
"Críticos de pintura costumam trabalhar as virtudes do cromatismo, dos
movimentos, da elegância, das inserções nas correntes da arte... as mesmas
coisas que é preciso dizer sobre todos. Considero o dernier cri pouco útil
em Cláudia Simões, porque as influências dos padrões vigentes são resistem
sua força. Esta mulher é inatingível por princípios "do que é preciso ser
momento": é esta liberdade de pensamento que sustenta todas teorias da
criatividade conhecidas, de Ferguson a Arthur Koestler. Eu, entretanto,
apenas um amante de recados passados por imagens, pensei que com esta
apresentação, devia antes ir, até onde a pintura de Cláudia Simões se
relaciona com um país como o Canadá. Foi aí que me dei conta que clima,
costumes, língua, tudo que isto que nos separa, acaba se unindo com sua
pintura. Ou não é assim ?
Convenhamos: a pintura de Cláudia só é tenuemente identificada com um lugar,
porque representa a geografia do infinito - isso que permite a um indonésio
ou canadense captarem significados próximos, como deveriam ser as aspirações
por tempos de paz. Mesmo que seus retratos surjam do Brasil, acabam nada
tendo dele, de Bali ou do Quênia. O que suas cenas revelam é o mundo visto
do Brasil, naquilo que ele tem de melhor: a alegria de viver. Não são as
cores do Brasil, mas uma possível cumplicidade do homem de qualquer parte
com a natureza, nesses lugares ainda possíveis em nosso mundo calcinado. Sua
modernidade é precisamente esta. Cláudia-mulher é como o enquadramento de
suas pinturas: o olhar ( como oplano geral em cinema, se preferirem) que
permite apreender o todo de um momento que teima em ser eterno.
Cláudia mora numa casa de muitos jovens, profusão de plantas, acordes
musicais, e mais: vinho, luz de vela, objetos de recordação, portas sempre
abertas para o mundo, o mundo numa casa e, ainda, sonhos, muitos sonhos.
Depois dos tempos, quando restarem apenas os quadros, a lembrança sobre o
artista será apenas aquilo que um distante pesquisador terá alcançado (...).
Eis porque, o privilégio de brindar com o artista é um dom reservado aos que
vivem o mesmo presente. Em princípio o futuro terá de dialogar sozinho com
quadros como esses, mas se falamos em "diálogo" teremos deixado de estar sós
= seremos nós e a pintura...Alguns artistas abrem caminhos, Claúdia abre os
corações e por isso falam para a eternidade. "
Eduardo Yázigi
Professor de Teoria da Criatividade da Universidade de São Paulo
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