Desenhos e gravuras de Marcelo Grassmann


Marcelo Grassmann sem título 2002
Gravura em metal 40 x 53 cm

No futuro, daqui a 50, 100 anos, ou talvez nos próximos anos, quando se fizer um estudo sério sobre a gravura no Brasil e por que não, no mundo, a obra de Marcelo Grassmann, sem contestação, estará no primeiro plano.

Desde quer começou a gravar em tacos de madeira nos anos 50 e posteriormente em chapas de metal, Grassmann foi sempre instigante, provocante. Em seus desenhos e gravuras nunca houve lugar para banalidades, futilidades.

Dos cavaleiros medievais, dos animais fantásticos, das cenas realistas mágicas à série A morte e a donzela, Grassmann depurou, reduziu, minimizou ao máximo o literário, o narrativo em busca de maior objetividade, clareza, concisão.

Tanto no desenho como na gravura Grassmann diz a que veio. E o faz como mestre que é. Na leveza de um traço desenhado a extrato de nogueira ou na densidade dos riscos, das gravações, da mordedura do ácido, na repetição do gesto de riscar, gratar, gravar, no tirar e por é que Grassmann se revela.

Observo os desenhos da série A morte e a donzela. Enquanto a imagem da morte cada vez mais se transforma em Cérbero, o cão que vigiava o Hades, a donzela fica mais e mais sedutora esbanjando sensualidade ao sorrir enigmática como a esfinge antes de Édipo decifra-la.

Na pungência da música, na beleza das imagens, dois mundos. Schubert e Grassmann. Aqui, o fantástico, o mágico, a vida e a morte, encontram seu destino. É hora de olhar. De se comprazer. É hora de refletir.

Carlos von Schmidt
18.11.2002. 23,00h


Marcelo Grassmann sem título 1998
Desenho extrato de nogueira 40 x 50 cm


Sexta-feira, 15, às 17 horas encontrei Marcelo Grassmann no escritório de arte Augusta 644.

Marcelo veio de São Lourenço onde mora para fazer compras, entregar mais gravuras e conversar comigo. Cheguei meia hora antes da hora.

Vi parte da exposição. Gostei muito dos desenhos em que a morte libidinosa lambe a donzela.

A outra parte vi com Marcelo de cicerone. Conversámos sobre os desenhos e as gravuras. A entrevista abaixo é fruto dessa conversa.

CvS

artes: : - Em entrevista ao artes: em 1970 o senhor disse que pediu ao Antunes Filho que mostrasse suas gravuras no programa dele com o fundo musical de A Morte e Donzela de Schubert. Trinta e dois anos depois o senhor está apresentando a série A Morte e a Donzela. Quando foi que essa série começou? Como? Por quê?

Marcelo Grassmann : A década de setenta foi o momento do grande encontro com a obra de Schubert e freqüentemente trabalhava ouvindo-o nos velhos discos de vinil sem parar. Quanto à série de desenhos, embora esporadicamente surgisse na minha temática, quando fiz setenta anos montei uma exposição no MASP onde fiz um conjunto que realmente homenageia Schubert. Retomo A morte e a Donzela nesta exposição deixando-a num clima mais ambíguo com homens, mulheres, animais, vida e morte.

artes: : - Há um desenho da série A Morte e a Donzela em que a morte cavalheiresca e gentilmente oferece flores à donzela. Por favor, fale a respeito.

Marcelo Grassmann: Ao ver este desenho no meu atelier, Pedro Hiller sugeriu como capa de catálogo como uma espécie irônica de homenagem e convite.

artes: : - É raro encontrar na arte brasileira erotismo, sexo explícito. Em um país em que seios e bundas fazem parte do cenário cotidiano da televisão, e a carga erótica é incalculável, nas artes plásticas passa batido. Em A Morte e a Donzela, existe. Está exposto. Foi difícil tomar a decisão de expor? Não houve restrições?

Marcelo Grassmann: A decisão de expor partiu do entusiasmo de Antonio Carlos Abdalla, curador da exposição com o assentimento sem restrições do galerista Pedro Hiller.

artes: : - O senhor tem desenhos e gravuras guardados a sete chaves? Poderia falar sobre? Cadernos de anotações íntimos?

Marcelo Grassmann: Não tenho nem cinco chaves quanto mais sete para guardar desenhos... e quanto à anotações íntimas elas estão em cada desenho ou gravura que faço, deixando provavelmente um depoimento mais íntimo do que seria capaz de por em palavras.


Marcelo Grassmann sem título 2002
Gravura em metal 40 x 53 cm


artes: : - O que o leva a deformar cada vez mais o rosto da morte em seus desenhos enquanto a donzela permanece cada vez mais sedutora, desejável e sensual? Sorrindo enigmática como a de Leonardo?

Marcelo Grassmann: No jogo da sedução todos os parceiros podem ser divinos ou grotescos mas tem que ser sinceros.

artes: : - No passado já falamos sobre o preto e branco nos seus desenhos e gravuras. O senhor deixou claro que as cores não lhe atraem. Houve o nanquim, a tinta de impressão e agora há o extrato de nogueira. Quando foi que o extrato de nogueira passou a ser a tinta preferida?

Marcelo Grassmann: O extrato de Nogueira sempre esteve presente desde os anos quarenta quando fui entalhador em madeira e ele era parte do acabamento das peças entalhadas, além disso o exemplo do uso deste material na fatura de desenhos antes até do Renascimento mostra um potencial expressivo e uma durabilidade nas aguadas principalmente.

artes: : - Pouco ou quase nada se fala sobre a gravura no Brasil. Pode-se contar nos dedos de uma, mão os países que tem gravadores do seu naipe, gabarito. Recentemente vi na exposição da China na FAAP um artista de 39 anos, Fang Lijun expondo xilos gigantescas, de 488 x 730 cm, em rolos de papel. O senhor que grava há mais de meio século como explica esse desinteresse?

Marcelo Grassmann: O desenho e gravura devem estar sendo cultivados silenciosamente em todos os cantos da terra. O problema não é fazer; é mostrar! O publico mais interessado em investir do que propriamente conviver e apreciar considera as artes gráficas como arte menor, pelo menos para o seu bolso. E naturalmente as galerias, com raras excepções, se arriscam em lançar artistas gráficos.

artes: : - O que significa desenhar, gravar, para o senhor? Em que momento o senhor sabe que o desenho não será gravura? O que o leva a gravar, a riscar o metal?

Marcelo Grassmann: Desenhar, gravar são partes do mesmo processo criativo e linguagem irmãs.

Surgem as idéias que ora se aplicam ao desenho, ora à gravura, seja ela metal, madeira ou pedra.

artes: : - No manuseio diário dos instrumentos de trabalho sempre se acaba gostando de algum. Picasso tinha uma agulha enfiada em um toco de madeira. Era seu buril preferido. E o seu?

Marcelo Grassmann: Picasso, sem dúvida um mestre, ao meu ver mais interessante no desenho e gravura do que na pintura, nunca levou muito a sério as tradições artesanais improvisando genialmente com que lhe caía nas mãos. No meu caso, respeitador que sou da tradição sem ter o talento da improvisação, mantenho fidelidade aos instrumentos que me foram dados ou que foram usados desde Dürer, Callot, Rembrandt, Carlos Oswald até Mário Gruber.

artes: : - Nesses anos todos de desenhar e gravar o que lhe agradou mais e o que detestou e ainda detesta?

Marcelo Grassmann: Nunca como agora os jovens cansados de tantas experiências se voltam para um aprendizado sério quando se dedicam à gravura. Isto me agrada, o que me desagrada, naturalmente, são as incursões na tecnologia rotulando de gravura meras reproduções mecânicas ou video-mecânicas, afinal quando o cinema apareceu ele teve a autonomia de se intitular cinema e não pintura falante ou pintura em movimento, cada coisa no seu nicho, respeitando o dos outros.

artes: : - Em 70 disse ao senhor que só via Bach e Canto Gregoriano como fundo musical para suas gravuras e desenho. Hoje não diria isso. Schubert à parte, quem o senhor escolheria?

Marcelo Grassmann: Neste últimos trinta anos a qualidade e quantidade e redescoberta, principalmente do Barroco nos oferecem músicas numa escala ainda mais difícil de escolha.

artes: : - Há na exposição da Augusta 664, um caráter didático mais do que louvável. Como o senhor se sente vendo seu trabalho, sua obra se transformar em aula magna?

Marcelo Grassmann: Tenho a esperança, que é também a do curador da exposição, que seja mais freqüente este tipo de didatismo desvendando a intimidade do fazer gravura.

artes: : - O senhor está com 78 anos. Está fazendo uma exposição que reúne 106 obras. Quais são os seus planos, "meu jovem"?

Marcelo Grassmann: Não faço planos propriamente ditos mas anseio por trabalhar pois como Sísifo estou condenado a empurrar uma pedra montanha acima vendo-a rolar para baixo recomeçando irremediavelmente.

Entrevista feita por E-mail, após contato pessoal,
respondida em 15/11/2002 às 19:30h


Marcelo Grassmann sem título 2002
Gravura em metal P.A. 40 x 53 cm