3º Tempo ou Caixas de Fumaça

Ver obras de Rubens Gerchman é sempre um prazer. Maior quando a qualidade supera a quantidade. Na Euroart/Castelli, na Rua Colômbia l57, Jardim América, qualidade e quantidade, em perfeito equilíbrio proporcionam prazerosa sensação de inefável bem estar. A palavra inefável há muito esta fora de uso, mas exprime exatamente o que quero dizer.

O curador João Spinelli e Gerchman apresentam até 16 de dezembro no espaço privilegiado da galeria, mostra que teria feito o outro Castelli, o Leo de New York,se estivesse vivo , urrar de prazer. E com razão. A meu ver, dos artistas que começaram a expor nos anos 60, Gerchman sem dúvida foi o que mais captou a essência de Duchamp e a contemporaneidade de Wharol.

Suas pinturas, seus objetos, sofisticadamente toscos, suas caixas de fumaça, edifícios, ônibus, casais aos beijos loucos nos bancos de trás, estabelecem leituras múltiplas de hodierna realidade. Isso não é recente. Existe desde o começo. Não fosse o artista que é, seria jornalista, escritor. Repórter de primeira. Perspicaz, crítico, contundente. Incisivo, duro sem perder a ternura, a poesia.

Observo seus objetos em que predominam caixas, ou formas de caixas. Para mim não é difícil vê-lo no Olympus. De toga pregueada branca olhando de soslaio para Zeus e fazendo charme para Pandora. Ao contrário do deus grego dá à moça caixinhas com a recomendação expressa de abri-las sem mais delongas. O protótipo de mulher olha desconfiado. Depois que abriu a caixa que Zeus lhe deu a humanidade se danou.

Não resiste e abre. Uma, duas,três, inúmeras. Nada de mal acontece. Deslumbra-se. Nas caixas de charutos convertidas em caixas de sonho, de memória, Gerchman exercita nossa imaginação, lembrança, memorabilia . Em cada caixa há macros e micros universos. Descobri-los, encontra-los, reencontra-los cabe a cada um.

Assim como imaginar o que rola entre um beijo e outro no banco de trás.Nessas pinturas a sensualidade explode, a luxuria domina. O voyeur que existe em todos nós é desperto. É Gerchman do melhor.

Do alto de sua nuvem no Olympus Gerchman continua a nos cutucar e a dizer, a vida é curta, a arte longa. É isso.


CVS l3/12/2001 11,30.