CURRICULUM
EXPOSIÇÕES
GALERIA SETA
1966








Diálogo
spray s/ tela, 0,89 X 1,14 m
1965




Texto de Jorge Mautner

"Aguilar odeia o bom gosto. Ele cuspiu no esteticismo. Rompeu as barreiras e impôs-se heróico e épico, desafiando a mediocridade enquadradora. É um demoníaco integrado na história. É impulso, jazz do melhor, fúria e escândalo.

Aguilar tem três fases, nas três a mesma necessidade do épico. Aguilar no fundo é um muralista. Suas cores douradas, infantis, próximas da pureza, mesclam-se om símbolos que emergem do coletivo. Os arquetipos da humanidade em constante ebulição. Aguilar é um pintor revolucionário. Ele necessita do mural. O México deu a seus filhos pintores os murais de que necessitavam para pintarem para a história, a história de seu povo num determinado momento. Quando o Brasil fará o mesmo com Aguilar? "

Jorge Mautner
1966




Texto de Mário Schenberg

"José Roberto Aguilar inicia uma nova fase de sua pintura. Como nas viradas anteriores, ele modifica consideravelmente a sua linguagem, conservando porém as constantes da sua forte personalidade, cada fase da obra do jovem artista representa o aprofundamento de uma problemática já delineada nas anteriores. Agora, em sua pintura de "spray", o tema do tempo e da linha ocupam a posição central, com mais nitidez e resolução do que anteriormente. Quanto à linguagem gráfica e pitórica, Aguilar aproxima-se mais das tendências neo-realistas, afastando-se do seu gênero especial de realismo fantástico. Há mais de dois anos, Aguilar vinha atribuindo sempre maior importância ao grafismo, no seu trabalho, com o objetivo de utilizá-lo como criador de durações e de ritmos temporais. Conseguiu em boa parte constituir as massas de cor com o enroscamento das linhas coloridas, dando-lhes assim, geneticamente, durações específicas e ritmos intrínsicos. A ênfase dada à estrutura temporal foi entrando em contradição cada vez mais agura com o seu figurativismo, oriundo de suas fases expressionista e realista fantástica. Houve várias flutuações, em que se alternavam supremacias do grafismo de tendência pollockiana com retornos nítidos dum figurativismo vem acentuado.

Essa indecisão foi encerrada, há poucos meses, quando ele começou a fase atual do "spray". Com a técnica do "spray", abandonou as pesquisas de textura, passando a basear sua pintura apenas sobre o colorido e o grafismo. Aliás, o desinteresse generalizado pela textura é bem característico do período posterior ao auge do informalismo. É importante notar que, na fase atual, Aguilar ainda usa o óleo de um modo especial: o fundo de "spray" é compartimentado por linhas brancas ou negras, também de "spray", havendo dentro de cada compartimento um desenho a óleo. Esses pequenos desenhos, ora são figurinhas, ora símbolos compostos com setas, círculos, linhas senoidais etc., ora garatujas ou outras estruturas lineares. Em algumas telas, as linhas de compartimentação também criam um grafismo complexo. Em conjunto, a riqueza rítmica e a agilidade dessas pinturas são verdadeiramente fascinantes. As telas da fase atual de Aguilar são antes estruturas temporais do que espaciais. Cada compartimento corresponde à uma "época" diferente, não havendo simultaneidade nem interdependência entre os acontecimentos dos vários compartimentos. Daí a não ordenação cronológica intrínseca desses acontecimentos: o espectador os coordena com grande liberdade, podendo ir e vir em várias direções temporais. Surge assim uma estrutura temporal subjetiva, de dimensionalidade largamente arbitrária, encaixada na estrutura temporal definida, gerada pelas linhas separadoras dos compartimentos. Aguilar sempre revelou um senso cósmico espacial. Em algumas das suas telas de "spray", encontramos imagens impressionantes, em que energias de tipo puramente físico se entrecruzam com formas de vida em fluorescência.

Há uma intuição cosmogônica nessas composições tão sedutoras e intrigantes. É precisamente pelas suas vivências cósmicas que Aguilar se distingue entre os artistas mais talentosos da nova geração, enriquecendo a nossa arte com uma visão singular. O seu universo foi sempre dramático, desde as primeiras fases, sempre carregado de emoções e de energias físicas e vitais. Foi tembém simbolicamente misterioso. Posteriormente, as idéias passaram a integrar a visão de Aguilar, ao lado das energias e das emoções, como que possuindo uma substancialidade quase material. O homem, na pintura de Aguilar, apareceu como um nó focal das energias, emoções e idéias universais.

Nas telas de "spray", as imagens cósmicas de Aguilar mudaram bastante de natureza. Talkvez sinta mais vivamente os campos de força e as ondas transportadoras de energia da época da eletrônica e da física nuclear. Na sua fase atual, o puro movimento mecânico cede o lugar ao sentido elétrico, tensional e radiativo. As suas imagens dinâmicas são mais sutis e misteriosas do que anteriormente. Há uma fusão maior entre o físico e o espiritual, num sentido existencial da energia. "

Mário Schenberg