CURRICULUM
EXPOSIÇÕES
GALERIA GRAFFITI - 1976


José Roberto Aguilar se revelou sempre um dos artistas mais interessantes e representativos da geração da década dos 60. Foi um dos pioneiros da arte mágico-social no Brasil, quando esta tendência ainda não se afirmara decididamente na América Latina. Vivenciou sempre intensamente a atmosfera política e humana das megalópolis em que viveu: São Paulo, Londres, Nova York. Soube captar de modo pessoal e mitológico a essência dos mundos que pode conhecer através de imagens fortemente dinâmicas e muitas vezes perturbadoramente sibilinas, e sobre tudo por sua magia da cor.

O depoimento de Aguilar sobre Nova York é também uma resposta ao desafio da Esfinge, dada como artista brasileiro. Não se deixou levar pela sedução, e procurou ver tudo com sua intuição mágica amadurecida, talves fascinado mas não conquistado como tantos outros, positiva ou negativamente.

Há talves três aspectos principais no depoimento de Aguilar: a desvitalização das linguagens por uma total redundância, a transformação nos símbolos lingüísticos numa caligrafia mágica e como se diria em inglês, "last but not least" a história do leiteiro... Talvez uma noção nostálgica das coisas simples da vida, talvez um caminho de volta à realidade humana.

Mário Schenberg.
Junho de 1976




Os Três
óleo s/ tela 1,80 X 2,20 m
1975




Borges
óleo s/ tela 1,00 X 2,40 m
1975




Diálogo
óleo s/ tela 1,80 X 2,40 m
1975




Ele
óleo s/ tela 2,40 X 1,70 m
1975




CRÍTICA DE JAYME MAURÍCIO


AGUILAR, QUE SE PROCLAMA E SE OCULTA

"O pintor Roberto Aguilar, um dos permanentes indagadores da informada Paulicéia, em fase carioca, lançou a sua fase carioca, lançou a sua fase brasiliana na PG. Através de intérpretes ou arautos de gamas diversas e através de sua própria criação verbal, comunicou-nos o seu novo programa nacional, tropicalista e antropofágico. Trata-se de artista sério. Temperamento ao mesmo tempo disciplinado e revoltado, Aguilar é capaz de enganar com suas demonstrações de cultivada selvageria, que é calculada e meditada.

Talvez o característico maior da produção de Aguilar tenha sido, até agora; exatamente isto: uma notável capacidade de ocultar o cálculo, o planejamento criador e a disciplina sob a aparência do ímpeto e do descontrole de instintiva criatividade ou expressividade. O atual momento de Aguilar cria dificuldades especiais para o que há de mais genuino em seu trabalho; pois que o seu momento atual é um momento de programa definido e proclamado como tal. Surge, deste modo, a contradição entre o planejamento que se conhece e se exibe e a inconformidade ou até mesmo a selvageria que tenta ocultar o programa. Não é sincretismo - é isso aí, mesmo.

A questão de maior interesse a respeito do Aguilar atual refere-se àquela contradição. Até que ponto o artista foi capaz de resolvê-la? Até que ponto manteve seus termos claros, sem simplesmente subjugar um a outro? O Aguilar de hoje continua de certa forma o Aguilar-67, que premiamos numa bienal paulista, com variantes técnicas e formais. Suas figuras mantém alto o índice de agressividade plástica. Como se conciliam, porém, ao programa deliberado? O pintor parece não ter resistido totalmente aos perigos da arte programada, em geral, e do próprio programa antropofágico, em particular. Sua pintura de 74 revela uma dose bastante alta de literatura. É mesmo a palavra pintada sobre a tela que revela seu programa. A palavra comunica a idéia mais do que a figura. Como Aguilar não é "conceitual", esta circunstância torna-se inquietante.

O artista procurou um máximo de integração de suas palavras de programa ao conteúdo figurativo de suas telas. As palavras pintadas devem funcionar com uma carga plástica - como se fossem ideogramas. Acontece, porém, que o elemento plástico no tratamento das palavras não se relaciona a seu significado - ou mesmo ao programa que defendem. A caligrafia de Aguilar evoca o sânscrito árabe - de raízes lingísticas tão distintas. Não evoca brasilidade ou tropicalismo.

Tampouco a cor e a luz do Aguilar de agora parecem particularmente brasileiras. O instinto selvagem do jovem e missegenado paulista encontra no expressionismo - e mesmo em sua versão conhecida como artbrut - uma tendência dificilmente resistível. A afinidade dos artistas nórdicos com o expressionismo marcou de tal modo os característicos plásticos da pintura expressionista que deve ser difícil a um artista negá-los ao consentir no expressionismo. Aguilar deve ter sido tocado por esta dificuldade. A cor de suas telas por vezes parece mais belga do que tropical. Os paulistanos atuais herdaram um sério travo europeu. "

Jayme Maurício
08-01-75 Última Hora